Wednesday, 20 de November de 2019

GERAL


A feminina voz da arte

03 Jul 2008

No princípio, elas já eram adoradas. As “Rainhas do Rádio”, entre as décadas de 30 e 40, despertavam fervor. Linda Batista, Dircinha Batista, Marlene, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba e Ângela Maria, entre outras, se sucederam no posto de cantoras mais populares do país, em meio a disputas acirradas de seus grupos de fãs. Ainda assim, quem conseguia arrastar o grande público eram os homens. Na chamada “Época de Ouro” da Música Popular Brasileira, nomes como o de Francisco Alves, o "Rei da Voz"; e Orlando Silva, o "Cantor das Multidões" eram imbatíveis frente às intérpretes.

Desde esses primórdios, criou-se o estigma de que mulher não vendia discos. Décadas se passaram assim, até a chegada de uma cantora exuberante, de vestidos brancos rodados, adornos africanos e cabelo revolto. A época: meados da década de 70. A personagem: Clara Nunes. O feito: bater recordes de vendagens, chegando a quinhentas mil cópias do álbum “Alvorecer” (1974) e abrindo espaço para outras sambistas, como Beth Carvalho e Alcione. Pouco depois, uma baiana de interpretação teatral atingiria 1 milhão de cópias, do disco Álibi (1978), chegando a rivalizar o posto de número 1 da música brasileira com o “rei” Roberto Carlos.

O estigma estava quebrado. O Brasil se firmava como o país das cantoras. Cada uma com timbre único, cantando as belezas e as mazelas de seu país, mas, sobretudo, os prazeres e as dores de amar - de modo que nenhum homem poderia cantar igual. Gal, Simone, Maysa, Nana, Elba, Zizi, Elza, Joanna emprestavam voz, corpo e emoção às canções. Aos homens, coube adotar o papel de compositor-cantor; raras as vezes, o de puro intérprete.

Através de seu canto, as mulheres personificaram a evolução comportamental, política e musical do país. Em especial, a recém adquirida liberdade de ser mulher.

Foram muito bem vindas Araci Cortes, que encarou de frente os preconceitos, tornando-se a primeira estrela feminina da MPB; Nara Leão, musa de movimentos tão opostos quanto a Bossa Nova e o Tropicalismo; Rita Lee, personificação da irreverência roqueira; Cássia Eller, que esfacelou os últimos tabus de sexo e comportamento no palco e na vida. Elis foi a voz da anistia aos exilados; Fafá foi o canto das “Diretas Já”.


Mulher 90

Aos poucos, a nova geração de cantoras foi cortando as raízes com o passado. Em relação aos temas, elas passaram a se mostram menos dispostas a rasgar o coração, como faziam as divas consagradas da MPB. Em vez de requisitar compositores masculinos, preferiram dar voz a composições próprias. Surgiu um novo som, mais contemporâneo e pop. Adriana Calcanhotto, Zélia Duncam, Ana Carolina e Vanessa da Mata são exemplos desta safra, que marca o final do século 20 e o início dos anos 2000. Marina Lima e Marisa Monte podem ser considerados os primeiros ícones dessa geração.


Pós-pirataria

Com o crescimento da pirataria de CDs e DVDs, surge um novo ciclo na MPB. As vendas de discos declinam e o mercado fonográfico se enfraquece. Passa a valer mais cativar um púbico para shows e buscar a construção de uma carreira sólida que propriamente repetir fórmulas que garantam altas vendagens. O que fez surgir uma nova tendência, dando um novo tom à voz feminina.

Sem que o mercado determine quem será a “revelação do momento”, está surgindo uma enxurrada de novas cantoras. São donas de vozes bem afinadas, que, em geral, se destacam em barzinhos descolados e transferem o bom repertório de palco para o formado em CD.

São também jovens de bela estampa. Compositoras ou não, todas são bem dispostas a garimpar canções esquecidas, ao mesmo tempo em que se mostram antenadas com a nova safra de compositores. Em seus discos, convivem em harmonia canções de Dorival Caymmi, Paulo César Pinheiro, Lenine, Marcelo Camelo e Rodrigo Maranhão. Ao contrário da geração “Ana Carolina”, elas deram uma pausa no pop, primando mais por um resgate à tradição da música brasileira. A maioria adotou o ritmo nacional mais emblemático: o samba.

São tantas as novas cantoras que mal se consegue acompanhar a velocidade em que são reveladas ao público especializado ou às massas. Os primeiros nomes despontaram para além do circuito alternativo, em 2007. É o caso de Roberta Sá, Mariana Aydar, Teresa Cristina e Mart’nália, na seara do samba, e de Céu e Ana Canãs, de influência pop. E não vou me alongar na lista para ficar apenas entre as que tiveram maior destaque.

Todas muito boas, sem dúvida. As que levantam a bandeira do samba fazem isso com muita propriedade, mas talvez com uma reverência excessiva ao passado. Com isso, se blindam de experimentar musicalmente. Assim, quem se destaca ao permanecer livre, leve e solta, cantando samba e soltando seu vozeirão jazzístico é Elza Soares. Aos 71 anos, ela mostra que sabe inovar e dá um banho em qualquer novata. Fica a lição pras moças, que são tão aplicadas em seu ofício.

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