Thursday, 09 de April de 2020

GERAL


A violência e o outro

21 Oct 2008

A violência é sempre uma resposta a outra violência, é assim que normalmente as coisas são percebidas.

A vida cotidiana desenvolve-se sob uma metralhadora que espalha grande quantidade de pequenas alteridades violentas numa nuvem sombria em torno de um eu que se sente totalmente atacado, vitimado. É a partir do outro que ameaças, agressões, hostilidades e duros golpes nos atingem, fundamentando-se em nós. Talvez seja necessário, para dar consistência e coerência ao próprio eu, declarar o outro o detentor da violência, como se fosse uma simples medida de higiene identificadora: a identidade pessoal só é possível quando se evacua no outro o mal, o violento que cada um traz em si. Não fui eu quem começou: conhecemos esta lengalenga de todas as brigas em pátios de recreação. Traça-se desta maneira uma definição fraca, evidentemente não-violenta, da violência: ela é aquilo que não fazemos outra coisa senão replicar.

Eu exerço uma violência contra o outro, que feio! Mas, posso assegurar, que era somente uma contra-violência, ah, assim está melhor! Inocente humanidade: só existiriam contra-violências, jamais uma verdadeira violência. Inquietante humanidade: todas estas pretensas contra-violências juntas apenas esclarecem melhor a estrutura do homem, iluminam sua face de agressão, revelando desta maneira que, fundamentalmente, ele é um ser-contra. Portanto, não apenas toda violência é violência do outro, mas é o outro, como tal, que é violência: pelo simples fato de ser ele outro, pelo simples fato de ele estar presente, pelo simples fato de ele ser. Outro, portanto em demasia! E esta demasia é a própria violência, elementar, nítida. Desde o momento em que o outro se coloca à minha frente - mas o outro está sempre à minha frente! Ele está contra mim, ele existe contra mim; ele ocupa certo espaço que me retira; ele ocupa certo tempo que me rouba; ele faz certos gestos eu sou o alvo; ele mantém um certo discurso eu morro de silencio, etc.

O outro me ocupa é insuportável! Para ele não é suficiente ser o outro; ainda é necessário que ele me implique nele, me ingira, me absorva na sua alteridade; que ele me vire e revire no seu próprio interior, para me jogar na cara uma imagem minha desconhecida por mim e com a qual me reveste. O outro me inflige uma dupla violência: violência da alteridade como tal, e violência da alteridade porque tenta me identificar, porque corrói ou soterra minha identidade. Existe, não podemos duvidar, uma relação dialógica boa entre o eu e o outro, entre Mim e Você, na linha que valoriza a reciprocidade desenvolvida por Martin Buber. Porém, como as epifanias posteriores da alteridade, pouco pesa face aos encarceramentos da violência. Em uma sala de aula, de reunião, ou num grupo de trabalho, quando aparece alguém que não era esperado, um desconhecido para dizer tudo, um outro -, alguma coisa no grupo bruscamente congela, uma espera tensa se instaura, e desta surge, perceptivelmente ou não, uma violência que permanece em suspenso, flutuando, até que a tensão se desfaça pelo acolhimento ou exclusão do intruso.

Pelo olhar, a violência faz suas graduações mais finas e mais variadas, como se existisse uma afinidade particular, quase metafísica, entre o olhar e a violência. Existem os olhares dignos de Górgona, que petrificava aqueles que a contemplavam olhares duros que congelam e assombram, impondo diretamente sua violência; olhares ditos inquisidores, desdenhosos, penetrantes, que interpelam, suspeitam, fuzilam; olhares que importunam e não largam o interlocutor; olhares de uma tal suavidade ou doçura que nos levam à perdição, nos aprofundam dentro deles ficamos felizes por não termos sido presos na camisa de força da ternura insistente, monopolizadora, e por não termos encontrado pupilas de ferro em olhos de veludos. Mas, de fato, tudo oferece uma fenomenologia da violência cotidiana: mímicas, gestos, palavras, tons de voz, posturas, etc., e estes mensageiros da violência são rapidamente percebidos como tais, dados imediatos da consciência, onde nos encontramos, pois todos estamos na mesma extensão de ondas, vibrações da violência humana.

COMPARTILHE:


Confira também:


Covid-19

Tocantins registra 23 casos do novo Coronavírus

São 23 casos confirmados nos município de Palmas, Araguaína, Dianópolis e Gurupi.


  Blogs & Colunas



Entre nós

Virgínia Gama


Arquitetura & Design

Riquinelson Luz


Vida Plena

Valquiria Moreira


As Tocantinas

Célio Pedreira