Tuesday, 16 de October de 2018

GERAL


Tratamento do HIV

Especialistas que lidam com soropositivos assumem vários papéis

12 Jun 2008

O suporte da família e amigos é fundamental para que o portador de HIV em estado depressivo apresente melhoras insignes no tratamento. Para isso, o apoio de médicos e especialistas - orientando sobre os aspectos técnicos da doença e as expectativas de cura e regeneração da vida - são essenciais para a auto-aceitação da doença. Na maioria dos casos, os médicos viram “analistas” e assumem papéis vitais na vida dessas pessoas. Trata-se de um relacionamento difícil para ambos, pois exige proximidade e formação de um vínculo muito forte, respaldado pela mais profunda confiança. Esses fatores, por exemplo, podem definir a adesão do paciente à terapia e, conseqüentemente, influenciar o resultado do tratamento. “É muito importante para quem lida com soropositivos estabelecer uma relação afetiva com o paciente. O portador do HIV/Aids, como qualquer outro paciente, busca no médico a solução para suas dúvidas em relação aos temores ligados às possibilidades de adoecer e de morrer”, explica a psicóloga Luiza B. Silva. Para ela, esta relação comportamental do paciente pode influenciar tanto em seu equilíbrio psíquico quanto nos resultados obtidos por meio do tratamento.

Para o único infectologista que atua num programa de DST/AIDS em Palmas, Alexandre Janotti, um dos principais problemas enfrentados pelos especialistas ao apresentar o diagnóstico da doença é o preconceito e a desinformação. Ele afirma que seus pacientes, na maioria das vezes, não estão preparados para a nova rotina e relaciona dois casos típicos de reação do recém-infectado. “O que mais percebo é o fato de a pessoa ter idéias completamente errôneas ainda sobre a doença. Ela mesma, por também ter ‘pré-conceitos’, passa a se preocupar com sua imagem, a partir de então, junto às pessoas com quem convive: o que vão pensar de mim? Que sou gay? Que sou uma pessoa pervertida? Que sou usuário de droga? Esse tipo de pessoa é a mais difícil de lidar, ela tem que quebrar seus próprios preconceitos, sua maneira de enxergar as pessoas e ela mesma agora. São essas pessoas que abandonam o acompanhamento e o tratamento, que perdem a chance de realmente se tratar e sobreviver”, pontua Janotti.

Outro tipo de pessoa, de acordo com o infectologista, é a que se vê numa situação de medo de enfrentar, a partir do diagnóstico, o relacionamento atual ou futuros relacionamentos por causa do risco de transmitir a doença e o risco de não ser mais aceita, ou até mesmo o risco de ser culpada pela infecção da pessoa com quem está. Ele explanou, ainda, sobre a importância do recém-infectado “abrir o jogo” com a família e apostar que as relações afetivas não se findam com a aparição da doença. “Acredito sempre que, se há o amor, a questão do HIV é plenamente superável. É o que tenho observado e é o que transmito para os meus pacientes”, finaliza.

 

 

Pesquisa

De acordo com um levantamento realizado durante o último Congresso Brasileiro de Infectologia, no fim de 2007, a reação do paciente ao descobrir que é portador do vírus não mudou muito nas últimas duas décadas. Para 62% dos médicos, o paciente reage pensando que vai morrer. Para 50%, o paciente entra em depressão; para 32%, entra em desespero; para 30%, demonstra revolta e, para 29%, apresenta estado de choque. O interessante é que 12% dos especialistas dizem que seus pacientes reagem sem grandes preocupações, pois acreditam que a Aids deixou de ser uma sentença de morte e acreditam no tratamento.

 

 

Um dos maiores problemas do HIV é o diagnóstico tardio


A incidência da Aids, apesar dos esforços do Ministério da Saúde, avulta a cada ano no país. Segundo a OMS -Organização Mundial da Saúde, estima-se que há 33 milhões de pessoas vivendo com HIV/AIDS no mundo. Desde 1980, foram notificados cerca de 474 mil casos da doença do Brasil, é o que afirma o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde.

Em toda a região Norte, mais de 53% da população infectada demora a procurar tratamento por não sofrer manifestações sintomáticas, de acordo com o Ministério da Saúde, através do UNGASS: Resposta Brasileira à Epidemia de AIDS.

No Tocantins, de acordo com a Secretaria de Saúde, cerca de 670 casos foram notificados no Estado, até o ano passado. Destes, 246 foram a óbito. Desde 1993, 43 pacientes faleceram sem ter chegado a iniciar o tratamento.

Para o médico Alexandre Janotti, que atua há 19 anos no tratamento de portadores do vírus HIV, a incidência da AIDS no Estado permanece estabilizada em relação ao grau eminente da doença, mas acentua a preocupação com os casos omissos. “Permanecemos com uma prevalência igual à nacional: cerca de 0,6% da população infectada pelo HIV, ou seja seis em cada 1.000 pessoas. O que considero alarmante é o fato de ainda ocorrem diagnósticos tardios, ou seja, as pessoas em risco, e isso quer dizer todos que praticam a atividade sexual, não têm sido estimuladas o suficiente para fazerem o teste anti-HIV, e acabam ficando doentes, muitas vezes não dando tempo para se beneficiarem das novas terapias e morrem ou ficam com seqüelas graves, principalmente neurológicas”, explica.  

Os grandes avanços realizados por institutos de pesquisas internacionais têm contribuído - por meio de medicamentos anti-retrovirais que atuam na estruturação da defesa imunológica - para que o portador do HIV não venha a manifestar a infecção crônica da doença. Existem registros de pessoas que contrariam o vírus e não desenvolveram a doença. “Essas pessoas estão sendo estudadas e talvez dos estudos com elas possam derivar melhores métodos de tratamento ou até mesmo a cura”, pontua o médico.

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