Saturday, 05 de December de 2020

GERAL


O faz de conta pedagógico da Maria

03 Jun 2009

Talvez, agora, a máscara da Secretaria Estadual de Educação caia de vez. E talvez haja uma tomada de postura dos profissionais da educação do estado em relação à qualidade da educação aqui praticada, no sentido de fazer frente aos desmandos da Maria.

Pois bem! Cheguei ao Tocantins em 2003, muito embora já conhecesse o estado pelas lutas de terras do bico do papagaio, das atrocidades capitaneadas pelos “coronéis do extremo norte de Goiás”, pelo trabalho das quebradeiras de coco, enfim, pela luta de homens e mulheres na busca da sobrevivência.

O tempo foi passando, a Maria chegou, e sempre vi o Tocantins na rabeira dos índices do MEC/INEP, quando se tratava da qualidade da educação. Porém, o discurso da Maria era de que a SEDUC estava implantando metodologias diferenciadas e investindo na formação continuada, etc e tal. Chegamos agora numa encruzilhada: o resultado do ENEM 2008 nos revelou duas infelizes constatações: última posição entre os estados da federação em qualidade do ensino e última colocação de todas as escolas públicas do Brasil. Ressalvas a parte para escola Apinajé, considerando todas as intempéries como alfabetização bilingue, diferenças culturais, professores ainda em formação, etc, mas nem por isso isentando os professores dessa escola das suas responsabilidades.

Felizmente três escolas públicas do Tocantins, sob a responsabilidade da SEDUC, alcançaram nota acima de 50 pontos: uma de Tocantinópolis, uma de Porto Nacional e uma de Paraíso. São elas: o Colégio Dom Orione, Colégio Sagrado Coração de Jesus e Colégio São Geraldo. Outras escolas públicas, como a Técnica de Palmas e Agrotécnica de Araguatins também conseguiram media maior que 50. Pois bem, nem questionamos o ensino das escolas técnicas, agrotécnicas e cefet's, agora denominados IFET's, porque, historicamente, elas sempre fizeram um ensino de melhor qualidade e, ao meu ver, porque o conteúdo sempre foi o pilar das propostas destas instituições. Querendo ou não, uma boa escola se faz com conteúdo e não apenas com discurso moderno de competências e habilidades. Ninguém se firma num bom emprego no mundo do trabalho apenas fazendo apologia às habilidades. Mesmo os gênios, que em certas habilidades se destacam, estudaram muito mais do que a média, não ficaram brincando com pedagogias de fundo de quintal a la Pherrenoud.

Agora temos alguns desafios. Digo 'temos' porque não vejo o trabalho da universidade descolado do restante do sistema educacional, nem da influência/interferência dos futuros professores/as na escola pública, embora tenhamos muito a melhorar. Entre os desafios, percebo:

1- necessidade de criar uma diretriz pedagógica para o estado, capaz de dar aos nossos alunos um ensino que, no mínimo, lhes dê condições de disputar as vagas na universidade pública, não apenas nas licenciaturas. A cada ano recebemos alunos mais analfabetos, mesmo tendo estudado 11 ou 12 anos, mais 2 ou 3 anos de cursinho;

2- desmascarar a política da Maria da SEDUC com relação ao “Se liga”, “Acelera” e aos projetos comprados de instituições que sequer têm projeto pedagógico. Talvez o slogan da SEDUC devesse ser “SE LIGA MARIA, FICAMOS EM ÚLTIMO”, que vergonha;

3- repensar o processo de formação continuada que tem se revelado numa farsa que apenas põe o dinheiro público no ralo. Se a tal gestão funcionasse, as escolas poderiam muito bem se agrupar, utilizar esse recurso para cursos de especialização por áreas. Além do mais, seria uma forma de agregar valor ao seu salário, inclusive para justificar a demanda que o estado apresentou no PAR, de capacitar cerca de 11 mil professores que já atuam na rede mas, ou não tem formação em nível de graduação, ou atuam fora de sua área de formação. Comodismo também mata;

4- sugerir ao sindicato dos professores uma proposição para reverter esse desastre no Tocantins, mas cobrar também dos professores/as, coerência entre discurso e prática – escola não é espaço para vender produtos da Avon, langerie, catálogo da Hermes, etc;

5- que os alunos do ensino médio despertem e passam a cobrar aulas de melhor qualidade, caso contrário farão parte da grande massa medíocre que foi à escola mas não tem conteúdo, logo não entrará na universidade. Aliás, o movimento estudantil do Tocantins precisa dizer a que veio. É fácil falar em qualidade e depois se aventurar em projetinhos de todo tipo porque isto ou aquilo virou moda.

Quanto ao ENEM, há críticas a se fazer, todavia há um fato concreto: cerca de 90% das escolas públicas demonstram incompetência no processo de ensino/aprendizagem. Vejo um discurso em favor das habilidades, das competências, do meio ambiente, da inclusão destes e daqueles, etc, mas a maioria dos professores continua com a metodologia de disciplinas estanques, com questionário e prova, com a visão de que a escola deve formar para o trabalho, muito embora não o façam, resumindo: com a metodologia da escola tecnicista de Dewey. Ora, em tese não há problema nisso, se fosse um processo bem feito. A questão é que a metodologia fica solta na “valorização da realidade do aluno” mas, no momento do vestibular e dos concursos, o que conta é conhecimento, conteúdo.

Há um descompasso no meio de campo e a SEDUC tem responsabilidade nisso. Os professores também. Toda essa reflexão tem como pano de fundo as novas propostas para ingresso na universidade pública. Ora, pelos resultados do ENEM 2008, haverá, talvez, cerca de 10% de alunos de escolas públicas nas universidades federais. Então, o discurso vago das cotas de vagas para aluno de escola pública parece não ter muito sentido, a menos que queiramos legitimar a incompetência respaldada nos estereótipos como “pobreza”, “negritude”, “indígena”, “estado periférico” ou algo do tipo.

Também acho que a universidade brasileira tem sua mea culpa a ser feita, mas não adianta as universidades realizarem a discussão de gestão democrática, currículo, e as escolas praticarem a “submissocracia” porque o/a secretário/a ou o deputado ou o prefeito tiram e põem seus comparsas para atenderem dívidas de campanha, seja para agradar ou para pagar favores, com direito a ir para DRE, Secretaria, direção de escola, etc. Com toda essa mediocridade será difícil passarmos a tocha do último lugar, até porque não há ninguém atrás de nós. Mais difícil ainda será justificar vagas para alunos da escola pública quando a qualidade é tão ruim. Nisso, não contem comigo.

Por último, a desculpa do baixo salário também não me comove mais. O Tocantins paga cerca de 2 mil reais de salário para um professor 40 horas. Por outro lado, a pesquisa da Pnad revela que o salário dos professores do ensino fundamental da rede pública é 11% maior se comparado com aquele pago ao docente da escola privada. Assim, podemos não concordar com a metodologia de coletados dados, com a concepção dos instrumentos de avaliação, com esta crítica, mas são os dados que temos.

Ora, preciso de algumas explicações: Porque temos a pior educação? Porque esta secretária não pede demissão? – É preciso atestado pior que este? Qual é a resposta do sindicato/professores? Porque não se faz um processo de avaliação dos professores da educação brasileira? Não para atender o mercado, mas para acabar com o faz de conta!

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