Tuesday, 22 de October de 2019

GERAL


Calazar

Pesquisadora alerta para matança indiscriminada de animais

18 Jul 2008

Palmas, hoje, é considerada uma região endêmica de calazar. De acordo com o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), o inquérito canino, iniciado em outubro do ano passado na cidade, coletou 11.222 amostras de sangue e registrou 1.615 casos de animais infectados, o que representa 14,4% das amostras recolhidas. Desses, aproximadamente 80% já foram sacrificados pelo centro. Só este ano, já foram registrados 12 casos da doença em humanos.

O calazar, que antes acontecia apenas em regiões periféricas, tem atingido também os centros urbanos. O CCZ tem atuado no controle da doença, mas, segundo a veterinária Lucilândia Maria Bezerra, professora e pesquisadora do Ceulp/ Ulbra, esse controle não está sendo realizado de forma ideal. Para ela, tem acontecido uma matança indiscriminada de cães, já que o centro realiza apenas um dos exames necessários para a comprovação da doença. “Apenas um exame não fecha diagnóstico para o calazar”, adverte Lucilândia. Além da sorologia imunológica que é realizada pelo CCZ - exame sensível, porém impreciso para o diagnóstico da doença - há ainda outros dois exames, como o parasitológico, que é o mais preciso, e o molecular, que auxilia, mas que há casos em que apresenta um resultado falso negativo.

O diagnóstico, nem sempre preciso, pode levar cães não portadores da doença a serem sacrificados, outro procedimento adotado pelo centro de controle que é questionado pela veterinária. Ao ser diagnosticada a doença, o animal recolhido é sedado e sacrificado por asfixia. Segundo Francisco Edílson Ferreira, veterinário do CCZ, o procedimento é permitido pela lei, mas, para Lucilândia, é muito desumano, já que o animal não é anestesiado, apenas sedado e, por isso, sofre. O procedimento correto, de acordo com a veterinária, seria uma anestesia profunda no animal, antes de submetê-lo à eutanásia com medicação específica.

Mas Lucilândia afirma que hoje há um relacionamento muito melhor entre o CCZ e os proprietários de cães. Ela ainda ressaltou que, desde 2006, a incidência da doença nos animais diminuiu, e que a Anclivepa – Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais, da qual ela é presidente no Estado, conseguiu um prazo de 30 dias junto ao CCZ para o recolhimento do cão supostamente infectado. Esse prazo permite que o proprietário do animal possa realizar outros testes particulares.

 

Falta informações sobre a doença

O Calazar - ou Leishmaniose - é uma doença causada por um protozoário que atinge os cães, animais silvestres e humanos. A doença é transmitida através da picada de um inseto vetor que se procria em locais onde há calor e umidade, principalmente em locais com materiais orgânicos, como é o caso dos lotes vazios.

A doença pode se manifestar de duas formas diferentes. A primeira delas é a viceral, que atinge os órgãos internos como fígado baço e intestino. Nesse caso, a pessoa infectada apresenta febre, dores e aumento abdominal. Já no animal, é perceptível apenas pelo emagrecimento progressivo, aumento do baço e fígado e o crescimento exagerado das unhas, o animal não manifesta sintomas da doença.  A segunda forma de manifestação é a tegumentar, que causa ferimentos na pele que, em humanos, podem ser confundidas com câncer ou ferimentos causados por picadas de insetos. Nos cães, a forma mais comum é a viceral. Em humanos, se diagnosticada precocemente, há tratamento com grandes chances cura. Já nos animais, ainda não há tratamento para a doença no Brasil, o contrário do que ocorre em outros países. “O governo não investe em pesquisas para que possa ser feito um tratamento diferenciado do que é realizado em humanos aqui no Brasil”, lamenta Lucilândia e acrescenta: “O grande responsável pela endemia é o próprio governo”.

 

Medidas preventivas

A população deve tomar certos cuidados para prevenir a incidência do Calazar tanto em animais como em humanos. Dentre elas, a principal medida deve ser a conscientização e os cuidados com a higienização dos quintais. Os focos de proliferação do mosquito são materiais orgânicos. Edílson orienta a população a não deixar expostos lixos, restos de alimentos e fezes de animais. Além disso, o veterinário pede à população que receba bem os agentes, facilitando, assim, o trabalho de controle da doença. Lucilândia também ressalta que é importante o uso de coleiras inseticidas e o acompanhamento regular do animal pelo veterinário, solicitando, pelo menos a cada seis meses, um check-up com exames específicos para o calazar. A pesquisadora ressalta ainda a importância de uma conscientização da população por meio de campanhas realizadas pelo governo, o que, segundo ela, não tem acontecido.

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