Saturday, 21 de September de 2019

GERAL


Questionar a si próprio

08 Jul 2009

De um modo geral, três atitudes manifestam o poder que tem o homem de pôr em questão seu passado e seu ser: o lamento, o remorso e o arrependimento.

Heidegger estava certo quando afirmou que o homem é "o ser das distâncias". De fato, o homem não coincide com o seu presente. Sempre volta para o passado através da lembrança e se lança para o futuro através do projeto. Quando ele se debruça sobre seu passado põe-se a pensar que esse passado poderia ter sido outro, teria podido não existir ou, contrariamente, poderia durar ainda. Poder da consciência capaz de sonhar o que poderia ser além daquilo que é; impotência do homem insatisfeito daquilo que é, daquilo que foi. Ora, é a mesma condição humana que se rebela plenamente nestes sentimentos de inadequação do homem consigo mesmo: o lamento, o remorso, o arrependimento.

O lamento é uma atitude puramente psicológica. O remorso é uma atitude moral. O lamento deplora uma ausência, o remorso é a presença intolerável em meu espírito de uma falta passada que me devora. No lamento há certa complacência, uma nostalgia doce-amarga, é o pensamento simultaneamente amargo e terno que se liga aos bens perdidos. O homem do remorso, porém, experimenta horror e ódio por um passado que queria definitivamente destruído. Quem lamenta é melancólico, quem tem remorso é desesperado. O remorso é a consciência íntima de ter cometido uma inobservância, de ter traído sua própria consciência. Supõe a solidão da consciência que não dialoga consigo mesma.

Como muitos afirmam, o sentimento do remorso implica sim a consciência da liberdade e da responsabilidade. Porém, ao mesmo tempo, e é isto que constitui a tragédia do remorso, é o sentimento agudo do irreparável. Essa tortura moral é feita de duas experiências que se chocam: sinto-me responsável pelo ato mau, cometi-o livremente; o ato agora é irremediável. Tenho o sentimento de que poderia fazer ou não fazer, mas que presentemente não posso desfazer. Tal é o sortilégio do tempo, cuja irreversibilidade trágica o remorso experimenta. O tempo transformou em fatalidade a obra da minha liberdade. É como disse, por exemplo, Claudel: "Se Deus mesmo fizesse outro céu e outra terra, não faria que este que existiu não tenha existido". O homem do remorso é exatamente, como disse Kierkegaard, "o aprendiz-feiticeiro que considera com terror o monstro de quem é pai".

No fundo, portanto, o remorso e o lamento, apesar de serem diferentes e opostos em outros aspectos, juntam-se neste ponto: ambos fazem mau uso do tempo. O homem do lamento gostaria de eternizar um passado desaparecido, arriscando desde então a não prestar mais atenção ao presente; não vive mais ao ritmo do mundo, deixa passar todas as ocasiões de alegria. O homem do remorso quereria destruir, aniquilar, quereria que aquilo que foi não tivesse sido, mas em vez de ir em frente, em vez de livrar-se de um passado maldito, ei-lo justamente prolongando-o e nele se absorvendo.

Arrependimento, ao contrário, manifesta uso positivo do tempo. O presente não é apenas eco do passado, mas representa apelo do futuro. O que importa aqui já não é a vã ruminação do passado, e sim a firme resolução de não recair mais em suas faltas e de progredir no caminho do bem. No remorso, sou prisioneiro de minha falta, sou minha própria falta. No arrependimento, tenho minha falta, ela pertence a meu passado. Porém, eu me separo dela; não a esqueço, confesso-a, mas com isso faço dela um objeto do qual me distingo. Ao remorso de Judas, cuja negação vai dar em desespero e suicídio, devemos preferir o arrependimento de Pedro que, sem dúvida, renega Jesus, também ele, mas renasce de seu passado e reencontra a esperança. Essa ressurreição do arrependimento, que é a ressurreição de minha liberdade, está ligada ao bom uso do tempo, à redescoberta de sua verdadeira dimensão viva, que é o futuro. A primeira categoria da consciência temporal, como disse Hegel, não é a recordação, mas o anúncio, a espera, a promessa.

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