Tuesday, 22 de October de 2019

GERAL


Verdade: norma e exigência

06 Aug 2008

Quando alguém mente, diz é "verdade"; caso contrário, não poderia mentir. Quando não aceita "calar a boca", diz "eu sei do que estou falando". O "gênio", ao se enganar, apenas entende que se enganou.

Todas as pessoas, de uma forma ou de outra, sejam elas "honestas", "mentirosas", "gênios"... Amam e consideram a verdade uma norma e uma exigência. Em qualquer lugar do mundo é possível encontrar, sem muito esforço, indivíduo que quer enganar, mas não é possível encontrar ninguém que quer ser enganado. Isso, no fundo, significa que as pessoas têm amor ao verdadeiro. Elas amam a verdade, portanto, visto que não querem ser enganadas. Amam tanto a verdade, que elas querem que seja verdade tudo o que amam. Ora, aí existe uma miragem que merece ser pensada.

Uma pessoa apaixonada (um delirante, exagerado e sincero) diz sem hesitar, "eu te amo, minha vida, meu amor, minha maravilha..." Ela acredita ser verdadeiro, no outro, tudo o que deseja amar nele (sua beleza, seu humor, sua inteligência, sua sensualidade, sua profundidade...) e, principalmente, essa poesia dos começos. Muitos se perderão aí, nesse deserto... Porque o que é preciso efetuar é uma verdadeira reviravolta, e difícil, uma verdadeira conversão: não mais crer verdadeiro o que se ama, mas amar o que se conhece. Submeter não mais a verdade ao amor, mas o amor à verdade. O "político" acredita que o seu partido é o partido da verdade ou da justiça. Toda a palavra de ordem, qualquer que seja, supõe assim essa pretensão ao verdadeiro.  No fundo, todos os políticos amam a verdade, mas cada um, em particular, só ama a "sua verdade". O religioso gostaria que o que ele amasse fosse verdadeiro... Gostaria, por exemplo, que a "alma" fosse imortal, que existisse um "Deus" boníssimo e onipotente, que a "história" tivesse um "sentido providencial..." E acredita nisso. Pode-se denominar de fé toda crença que submete assim a verdade a seu amor. Deste modo, o religioso crê em "Deus" e na "vida eterna" porque senão, como diz, "seria triste demais". A esperança serve-lhe de prova. O contrário de desesperar é crer. A fé é uma esperança dogmática. Quando alguém diz, "creio em ti porque te amo", significa confundir desejos com a realidade. O que é a própria definição da ilusão. A verdade da ilusão é a ilusão da verdade.

Ora, é necessário não submeter a verdade ao amor (paixão, fanatismo ou religião), mas o amor à verdade. Amar, portanto, não os sonhos, mas o real; não o outro fantasiado, mas o outro reconhecido.

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