Palmas, 24/11/2017

Opini√£o

Ciência e Tecnologia

Diretor de Inovação

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Diretor de Inovação


O gerenciamento das inova√ß√Ķes tem sido um desafio para as organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia. Entenda-se gest√£o, contudo, como o processo de planejar, organizar, dirigir e controlar recursos para o alcance dos objetivos organizacionais. Aplicando-se esta defini√ß√£o √†s organiza√ß√Ķes de C&T, significa planejar, organizar, dirigir e controlar recursos para que possam produzir as inova√ß√Ķes que os seus ambientes de atua√ß√£o necessitam. A inova√ß√£o √© quase desconhecida das nossas organiza√ß√Ķes porque seus executivos n√£o apresentam os dois dom√≠nios b√°sicos para que possam ser consequentes, dom√≠nios esses que correspondem aos dois grandes desafios conceituais e operacionais das inova√ß√Ķes, vistos sob o prisma dos demandantes. Neste sentido, este artigo tem como objetivo apresentar os dois focos de aten√ß√£o de todo diretor de p√≥s-gradua√ß√£o de organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia.

J√° foi dito que toda organiza√ß√£o √© um sistema de produ√ß√£o e que todo sistema de produ√ß√£o, enquanto sistema aberto, tem que suprir as necessidades do seu ambiente de atua√ß√£o, com o qual devem manter um canal de comunica√ß√£o constante e preciso. O gerenciamento adequado dos sistemas de produ√ß√£o de inova√ß√£o, sob a responsabilidade dos diretores de inova√ß√£o, vem exatamente da compreens√£o dessa din√Ęmica organiza√ß√£o-ambiente. Isso implica em suprir dois tipos de necessidades espec√≠ficas: as inova√ß√Ķes relacionadas aos processos de produ√ß√£o e aquelas que consistem em gerar produtos novos. Assim, h√° inova√ß√£o nos processos e inova√ß√£o nos produtos.

As inova√ß√Ķes processuais t√™m como finalidade a efici√™ncia do produto atrav√©s da melhoria das suas etapas sequenciais de produ√ß√£o. Em termos espec√≠ficos, a melhoria do processo gera a) mais rapidez, b) reduz custos, c) mais seguran√ßa, d) mais simples e e) mais competitividade. A rapidez significa fazer o mesmo produto em menos tempo, o que implica em alterar o processo de produ√ß√£o substituindo, eliminando ou fundindo etapas. Quando se reduz o ciclo de produ√ß√£o, em termos gerais, o processo se torna mais simples, sendo a simplicidade o contr√°rio de complexidade, que significa muitas etapas.

A redu√ß√£o de custos √© consequ√™ncia direta do uso de materiais e do tempo de ciclo do processo de produ√ß√£o. Inovar, aqui, √© eliminar itens, m√°quinas, equipamentos, insumos e outros itens que consomem dinheiro ou substitui-los por outros menos onerosos. A raz√£o disso √© que o custo total depende dos custos unit√°rios dos itens envolvidos na produ√ß√£o, inclusive os indiretos, como os custos de supervis√£o. 
O aumento da seguran√ßa √© item de inova√ß√£o porque permite a rapidez no processo de produ√ß√£o e a redu√ß√£o de interrup√ß√Ķes, seja por acidentes de trabalho, seja por reprocessamentos e paradas. Quanto mais a proposi√ß√£o de uma nova sistem√°tica ou etapa aumentar a seguran√ßa, maior o grau de inova√ß√£o que conseguir√° imprimir para a organiza√ß√£o.

A simplicidade é um dos alvos prediletos dos esforços de inovação organizacional. Simplificar significa reduzir a quantidade de etapas, máquinas, equipamentos, insumos e outros tipos de recursos no processo de produção. Quanto menos itens de composição do processo, menos complexidade, vantagem que se estende para os outros requisitos inovativos e aumento da competitividade organizacional.

A competitividade √© o ponto de partida e o ponto de chegada de todo esfor√ßo de inova√ß√£o. Nas arenas mais competitivas, o tempo de seguimento, que √© quando uma organiza√ß√£o consegue imitar e superar a organiza√ß√£o pioneira na inova√ß√£o, √© extremamente curto. Isso exige dos atores ambientais din√Ęmicas em horizontes de tempos cada vez mais curtos, de maneira que cada aspecto aqui detalhado (rapidez, custo, seguran√ßa e simplicidade) proporciona fugazes lideran√ßas competitivas √† organiza√ß√£o inovadora, mas que faz a diferen√ßa em termos econ√īmico-financeiros e mercadol√≥gicos.

O outro foco, talvez o mais visado por ser o mais conhecido, s√£o as inova√ß√Ķes revolucion√°rias, que costumo chamar de inova√ß√Ķes nos produtos. Esta inova√ß√£o pode ser sintetizada no termo "Novo Produto". Estas s√£o as inova√ß√Ķes mais raras, que correspondem a menos de 1% de todas as inova√ß√Ķes realizadas anualmente em todas as organiza√ß√Ķes do planeta. Apesar de tudo isso, concentra uma quantidade relativamente grande de pessoal, dinheiro e esfor√ßos em rela√ß√£o √†s inova√ß√Ķes processuais, o que explica, por exemplo, o elevado custo total e seu consequente para os consumidores finais.

Por incr√≠vel que possa parecer, s√£o √†s inova√ß√Ķes revolucion√°rias que as organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia brasileiras parecem mais se concentrar. Mas, como seus dirigentes desconhecem a din√Ęmica do mercado e as especificidades dos produtos que procuram substituir, quase sempre n√£o conseguem alcan√ßar seus desejos. Esse insucesso n√£o √© por falta de capacidade inovativa, mas por falta de conhecimento mercadol√≥gico e gerencial. N√£o √© por incompet√™ncia, mas devido √† ignor√Ęncia. Ao inv√©s de cientista, os diretores de inova√ß√£o das organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia tamb√©m precisam ser, tamb√©m, executivos.

Est√° chegando o tempo em que as organiza√ß√Ķes brasileiras de ci√™ncia e tecnologia v√£o ser for√ßadas a profissionalizar tamb√©m a gest√£o de suas inova√ß√Ķes. Ou melhor, v√£o ser obrigadas a inovar, porque atualmente apenas t√™m a posi√ß√£o de dire√ß√£o de inova√ß√£o, mas que operacionalmente s√£o ineficientes, para n√£o dizer in√≥cuas. Diversas experi√™ncias bem sucedidas mostram que a inova√ß√£o come√ßa em casa, principalmente com a supera√ß√£o de desafios do tipo falta de recursos, pessoas, ambiente e condi√ß√Ķes de trabalho. Quem se quer inovador tem que se inovar primeiro. O resto √© mero discurso.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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