Thursday, 25 de April de 2019

OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Aspectos Centrais sobre TI: na pesquisa - parte 3

19 Jan 2018

As atividades de pesquisa científica, de forma geral, são o manuseio de conhecimentos científicos (ou do senso comum), máquinas,  equipamentos e insumos para a geração de novos conhecimentos ou de algum artefato. No caso das pesquisas científicas, os resultados a serem objetivos, com as devidas observações, são novos conhecimentos científicos ou algum produto, físico ou extra-físico. Isso quer dizer que, na atualidade, muitos poucos cientistas e pesquisadores realizam suas investigações sem máquinas ou equipamentos para manusear conhecimentos e insumos em busca dos resultados pretendidos. Mais ainda, os conhecimentos científicos e produtos tecnológicos mais avançados pretendidos exigem dos pesquisadores e cientistas habilidades para lidar com conhecimentos, máquinas e equipamentos também mais avançados. Para resumir: hoje, praticamente ninguém faz ciência de qualidade sem o auxílio da tecnologia da informação (TI). Este artigo tem como objetivo mostrar o papel da TI nas atividades de pesquisas nas organizações de ciência e tecnologia.

Quem olha um remédio na prateleira de alguma farmácia nem desconfia o quão longo foi o caminho que aquele produto passou desde a primeira concepção do projeto de pesquisa até o controle atual do grau de eficácia e eficiência do seu princípio ativo. Da mesma forma, quem manuseia um computador não tem a mínima ideia do emaranhado de atividades e protocolos que tiveram que ser seguidos para que aquele produto estivesse à sua disposição. Pois é, sem o pessoal da tecnologia da informação, não há pesquisa consequente, de primeira linha.

As organizações de ciência e tecnologia nacionais de primeira grandeza tem nos profissionais de TI a condição essencial para que se mantenham no padrão de excelência que conquistaram com muito esforço. Esses profissionais são responsáveis, por exemplo, desde a escolha dos softwares mais adequados para o tratamento estatístico de pesquisas de opiniões até o controle de robôs que mantêm a precisão na dosagem de componentes de drogas ainda sob estudo. Os cientistas sabem do que precisam, do que eles pretendem fazer. Sabem, por exemplo, que é necessário fazer análise de regressão logística combinada com análise multidimensional, mas desconhecem que sistema é capaz de fazer isso e que máquinas e equipamentos são necessários para que o seu objetivo possa ser alcançado. É aí que entra o pessoal de TI como supridores de necessidades.

Lembro de um desafio de um grupo de pesquisadores de uma universidade brasileira e outra européia, sobre como alcançar os objetivos de suas investigações, cujo problema passava pelo tráfego e mineração de dados. Ao ser acionado para auxiliar na resolução do problema, o pessoal de TI esquematizou desde a construção da rede e aspectos físicos dos prédios até a escolha dos softwares que controlariam cada etapa, processos e produtos de todos os projetos de pesquisas daquela equipe durante os dez anos de execução. E isso tudo sem fazer parte das equipes e sem exclusividade para elas.

Nas organizações de ciência e tecnologia é necessário o auxílio da TI não apenas para a elaboração dos projetos e sua execução. As necessidades também estão na gestão dos projetos, nas interfaces de troca de informações entre um projeto e o financiador, entre a equipe de pesquisa e as instituições de registro de patentes, entre o pesquisador e os periódicos e editoras, dentre inúmeros outros.

O que queremos mostrar e o pessoal de TI precisa entender que eles fazem parte de um desafio institucional de suprimento de necessidades do ambiente externo. E, no caso da pesquisa, o ambiente externo combinou ou requereu a entrega de conhecimentos científicos ou produtos de base científica e precisa que esses produtos requeridos lhes sejam entregues. Ainda que o pessoal de produção de conhecimentos e produtos científicos da instituição sejam capazes de honrar os compromissos assumidos, com a ajuda da TI esses suprimentos poderão se dar com mais eficiência (mais bem feito e mais rápido) e com mais eficácia (alcançar os objetivos por todos pretendidos). Para isso, o pessoal de TI precisa mergulhar no cotidiano do pessoal de pesquisa para que possam conhecer com precisão suas necessidades específicas e supri-las.

Uma equipe de pesquisa de uma instituição pública federal estava com sérias dificuldades para entregar os resultados de suas investigações para o órgão financiador porque um sistema não estava gerando os resultados com precisão. A equipe de TI, que desconhecia até os pesquisadores, estudou o caso e revelou que o sistema funcionava e que o que estava causando a imprecisão eram os ajustes em relação aos outros sistemas, que, digamos, estavam descalibrados. A ação deles foi determinante até para substituir dois dos sistemas que estavam sendo usados, para surpresa geral dos experientes pesquisadores da equipe, que imaginavam conhecer bem os sistemas isoladamente e em rede. O pessoal de TI, que nunca ouvira falar dos sistemas, máquinas e equipamentos que estavam com problemas, em menos de três dias dominou todos eles e encontrou os substitutos mais eficientes para resolver o problema. Esse foi mais um das várias centenas de casos de TI funcionando como auxiliares efetivos nas atividades de pesquisa.

O mundo moderno é o domínio das TI. E as organizações de ciência e tecnologia são tanto o local privilegiado na geração e no uso dessas tecnologias. Ora, se o que fazemos ali precisa o tempo todo de TI, por que razão o pessoal de TI não se envolve no auxílio ao suprimento dessas necessidades? Fazer TI está muito longe, hoje, de preocupação com aspectos físicos dos trabalhos desse pessoal, o que não quer dizer que isso não seja importante. É importante, mas não é essencial, no sentido de comprometer completamente o alcance dos resultados institucionais. Não saber agir como suporte às atividades-fim é, talvez, o grande impeditivo de fazer as atividades de pesquisa ganharem a relevância que precisam ter.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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