Tuesday, 11 de December de 2018

OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Contabilidade Gerencial

06 Feb 2017

A contabilidade gerencial talvez seja, dentre as temáticas essenciais que todo gestor de organização de ciência e tecnologia precisa conhecer bem, a mais desconhecida. É bem provável que apenas os gestores com formação contábil a conheça. No entanto, mesmo esses gestores não a utilizem como ferramenta essencial no processo de gerenciamento, quiçá porque não seja exigida formalmente pelos gestores estratégicos, quando organização privada, ou pelo Governo, quando se trata de organização pública. Em ambos os casos, contudo, denota-se, na prática, o desconhecimento da sua utilidade. É como o guerreiro que desconhece as armas mais importantes, preferindo lutar desarmado. Este artigo tem como objetivo mostrar por que a contabilidade gerencial precisa ser conhecida por todos os gestores de organizações de ciência e tecnologia.

Muita gente imagina que a contabilidade só serve para prestar contas com o Governo. Mais especificamente, a contabilidade é apenas do interesse do fisco, os órgãos arrecadadores e cobradores de impostos. Puro engano. Estrondosa ignorância. A contabilidade é, acima de tudo, ferramenta fundamental para o processo decisório de qualquer organização ou de suas unidades, não importando se seja pública ou privada, com ou sem interesse econômico ou lucrativo. A contabilidade é uma arma poderosa para aumentar a precisão e a racionalidade tanto do processo gerencial quanto do processo decisório. Ninguém consegue tomar decisão com maior probabilidade de acerto e consistência sem que essa decisão esteja baseada, também, em informações contábeis.

A contabilidade gerencial é direcionada para o público interno da organização. Trata com informações que todo gestor precisa conhecer para saber, com precisão, a situação dos bens, direitos e obrigações que estão sob sua responsabilidade. Sem a contabilidade gerencial, como saber quanto há em bens patrimoniais (prédios e instalações físicas, por exemplo) e operacionais (quantas carteiras, quantos computadores, quantos projetores etc.)? Como saber o que, quanto e quando compromissos devem ser saldados, pagos?

É muito comum nas organizações de ciência e tecnologia, públicas ou privadas, que a reposição ou conserto de máquinas e equipamentos demorem muito mais do que o necessário para ser consertados. Também é extremamente comum que os fornecedores e clientes não honrem seus compromissos. De quem é a responsabilidade de normalidade de operacionalização desses equipamentos e contratos? O conhecimento da contabilidade gerencial permitiria ver e prever essas situações, porque seu ponto forte está justamente na vinculação do tratamento das informações com o alcance dos objetivos da organização, chamada "entidade" pelos contadores.

Um contador assumiu a coordenação de um curso de graduação de uma universidade pública na década de 2000. Dentre suas providências, organizou todos os bens, direitos e obrigações sob sua responsabilidade, ainda que não existisse nada formal sobre isso. Iniciou o desafio de obtenção de receitas fora do orçamento do governo através de capacitações, treinamentos, pesquisas de mercado e inúmeras outras formas. Simultaneamente, utilizou um desses softwares freeware de gestão contábil e financeira que estão disponíveis na internet. Mensalmente, além do fluxo de caixa, divulgava entre seus pares e chefias um balanço patrimonial e demonstração de resultados do exercício. Essas duas peças contábeis eram elaboradas também para cada curso, especialmente os de pós-graduação lato senso. Em menos de cinco anos seu curso captava tanta receita quanto os outros e seu curso passou a ser um dos mais concorridos no vestibular.

Um recém-doutor assumiu a coordenação de pesquisa de uma faculdade particular. Como nada entendia de administração, investiu alguns meses no conhecimento do processo gerencial e descobriu a fundamentalidade da contabilidade gerencial. Aprendeu bem, dada a facilidade tanto de compreensão quanto de execução. Executou o processo gerencial assentado em sólida organização contábil-financeira e em exatos seis meses o orçamento previsto de sua faculdade já não era mais necessário, dado o montante de recursos que conseguiu auferir (e prestar contas mensalmente) para alcançar os objetivos que sua organização e coordenação de pesquisa acertaram para os próximos cinco anos. Mensalmente, também, divulgava entre seus colegas e superiores a situação precisa de sua coordenação com um balanço patrimonial e uma demonstração de resultados do exercício, em conformidade com o fluxo de caixa e orçamento projetado atualizado.

Esses dois exemplos mostram que não dá para entender como pessoas assumem cargos de gestão em organizações de ciência e tecnologia sem conhecer as ferramentas de gestão. É loucura. Mais do que isso, é comprometer-se sem qualquer possibilidade de sucesso porque trabalham no escuro, sem apoio técnico, apenas no achismo e no afã de que seus desejos possam se materializar. Vontade é essencial, como também o são os conhecimentos técnicos de gestão, porque são estes que viabilizam o querer. Pessoas com o querer e sem a tecnicidade mínima dificilmente alcançarão resultados satisfatórios, configurando-se em gestores perdulários dos parcos recursos (que não conseguem reconhecer porque confundem recursos com dinheiro) colocados à sua disposição.

Como decidir sem informações contábeis? Como gerenciar sem a contabilidade? Seria muito bom saber como raciocinam as pessoas em cargos de gestão para tomar decisões. Com base em que decidem? Que tipos de cálculos realizam para atestar as viabilidades econômico-financeiras de suas decisões? Como calculam os riscos e as probabilidades de sucesso? Enfim, que ferramentas utilizam para substituir as ferramentas técnicas consolidadas tanto pela ciência quanto pela prática gerencial? Eis um grande enigma que precisa ser desvendado...

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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