Saturday, 17 de November de 2018

OPINIÃO


Luto

Crônica: Só pra dar um toque

17 Feb 2010


Era um sujeito franzino, trêmulo, mas tinha uma grande cabeça, o Antonio. O povo da praça, a voz e a cara do povo vestido de verde, que todos nós vestimos que é o terno da nossa esperança. Um homem de grande poder astístico e analítico que conheci na TV e depois aqui, nesta Palmas que nos traz grandes almas. O Antonio, o que eu conheci bem de perto há cinco anos e que em 2009 ficou mais próximo, era um misto de alegria, seriedade e um senso, grande senso de humor, liberdade e amor ao próximo. No início deste ano, encontrei com ele no Shopping e ficamos algum tempo conversando. Ele comendo uma pizza pequena que gostava de comer eventualmente em um cantinho aprazível do lugar. Em menos de 15 minutos, falou comigo e outras 20 pessoas que o viam e o cumprimentavam.

O Antonio foi um sujeito aparentemente calmo. Sua calma o trouxe para o Tocantins, para Palmas. Ele trocou a ponte aérea Rio-São Paulo pela de Palmas – Brasília. Ele estava fora da TV, gostava do Carlos Alberto, o Nóbrega, mas não se sentia bem com o senhor Abravanel que queria um humor chulo. Ele, sensível e de bom senso, preferiu se resguardar. Tinha e sempre teve coisas melhores pra brincar, provocar e criticar. Na internet ontem, no site do Estadão, estava lá um vídeo dele com o Chico Anísio, outro que foi colocado para escanteio no humor da TV que trocou o cérebro pela língua descontrolada das palavras fáceis e perigosas. Ah, o vídeo continha uma sátira muito bem elaborada pelo seu Antonio e além das falas, uma música com o nome: “É só pra dar um toque”. O Antonio, esse cara misterioso que preferia fazer arte falando sério brincando com as palavras me disse que tinha planos para este ano e iria voltar para a TV aqui no Tocantins.

Ao saber que além de jornalista, eu também tocava gaita, me convidou para fazer um quadro em um futuro programa, onde ele seria um pescador, contando histórias e suas sempre inteligentes anedotas e eu seria o que eu sou, um gaitista, que ficaria tocando fazendo um fundo musical e teria alguma fala que era pra não dizer que só sabia soprar. Pois o seu Antonio foi convidado por Deus a sair da nossa cena no último dia de carnaval, no princípio da última noite, sem fazer muito estardalhaço, que é coisa de gente de bom senso e ainda, em um esquete bem preparado: dentro de um barco, com a esposa e seus dois netos, que eram parte do atual amor que ele dedicava. O mesmo amor que dedicou ao criar os filhos. Era mesmo um grande multiartista esse Antonio Arnaud Rodrigues. Sua alma agora vai criar outros personagens para a diversão e deleite das almas próximas, coisa que ele sempre soube fazer com maestria. À família, meus cumprimentos e um toque: A dor é para os que perdem. Deus sempre soube o que faz. O pai, o amigo, o irmão, o marido, o amigo, tudo fica muito bem guardado. Afinal, a canção que se canta de emoção, com choro de tristeza ou alegria, é uma imagem viva.  Mas na arte é que a gente engana a ausência com a lembrança, e o seu Antonio só deixou boas lembranças.

Roberto de Oliveira – Jornalista e músico

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