Tuesday, 23 de July de 2019

OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Geração de valor e receitas

26 Jan 2017

Nas organizações de ciência e tecnologia, a geração de valor e receitas é um fenômeno não compreendido. Muitos imaginam que cabe ao gestor financeiro, única e exclusivamente, a responsabilidade de dar revestimento legal às entradas e saídas de dinheiro da organização. Isso não é verdade. Finanças, assim como todo e qualquer fato ou fenômeno organizacional, não estão circunscritas a uma unidade, setor ou indivíduo. Antes, é responsabilidade de todos. Isso significa que todos em uma organização são responsáveis pelo desafio de aprender todos os aspectos essenciais organizacionais e gerenciais para que possa executar com adequação suas tarefas e, no futuro próximo, ascender à posição de gestor. Dessa forma, este artigo tem como objetivo mostrar que as receitas (e despesas) são a contrapartida da geração de valor, responsabilidade de todo indivíduo na organização.

Genericamente pode-se dizer que toda organização é uma fábrica de bem. As organizações existem para fazer o bem. É claro que existem organizações criminosas cujo mister é a produção do mal, mas ainda assim, esse mal, pelo menos na mente criminosa, tem como finalidade algum tipo de bem. Como decorrência, para que o bem seja produzido, uma cadeia de produção, chamada tecnicamente "cadeia de valor", precisa ser planejada e executada. No caso das organizações de ciência e tecnologia, seus produtos e serviços, oriundos das atividades-fim ensino, pesquisa, extensão, inovação e empreendedorismo tecnológico, precisam delinear, primeiro, o bem a ser gerado, e, depois, a sua respectiva cadeia de valor.

Quando se fala em bem e cadeia de valor não se está fazendo referência ao perfil do egresso ou objetivo do curso, no caso do produto "ensino". O bem é correspondente à necessidade do cliente a ser suprida, ou seja, o bem diz respeito a quem vai receber o produto/serviço para suprir sua necessidade. O perfil do egresso e objetivos do curso dizem respeito a características do produto, uma vez que o aluno é matéria-prima que será transformada no produto final que, por sua vez, será entregue ao cliente. E aqui aparece o que não é levado em consideração nem no planejamento nem na execução das atividades de produção das organizações de ciência e tecnologia: o desenho da cadeia de valor.

Para desenhar uma cadeia de valor, deve-se responder tecnicamente a seguinte pergunta: quais os benefícios esse meu produto/serviço entregará ao meu cliente? A partir das respostas técnicas, o passo seguinte é a incorporação ao produto dos benefícios, chamados tecnicamente de valores, identificados. Isto posto, o processo de produção se transforma em uma cadeia de incorporação de valores, ou simplesmente cadeia de valor, valores esses que precisam ser testados e validados para que efetivamente estejam incorporados aos produtos e serviços prometidos.

É a quantidade e qualidade dos valores incorporados aos produtos e serviços que ditarão o valor de mercado do mesmo produto/serviço. Por essa ótica fica fácil compreender por que determinados profissionais formados por determinadas organizações de ciência e tecnologia não conseguem emprego, enquanto que os de outra assinam contrato de trabalho ainda durante a realização do curso. Isso explica por que projetos de pesquisas de certas organizações de ciência e tecnologia não conseguem financiamento, enquanto para outras há inúmeros financiadores implorando propostas. O mercado, por incrível que pareça, é justo: produtos e serviços que têm valores reais incorporados são valorizados; os que não tem, não o são.

Gestores de organizações de ciência e tecnologia, especialmente as públicas, se submetem a humilhações de mendigar dinheiro em gabinetes de políticos. Colocam-se em posição inferior, em inquestionável declaração de inferioridade de seus produtos e serviços. Como desconhecem o que é e para que serve a cadeia de valor, não sabem quanto valem seus produtos e serviços, o que os leva a posições assimétricas de poder e negociação. Não sabem que é a cadeia de valor que gera as receitas. Como não sabem os valores que estão incorporados aos seus produtos e serviços (e por isso não os conseguem demonstrar), suas apresentações não passam de mendicância, muitas vezes com arrogância.

Se uma organização quer, efetivamente, se tornar independente financeiramente ou conquistar sua autonomia real, precisa profissionalizar sua gestão financeira. E o primeiro passo é reconhecer e compreender que a geração de valor é responsabilidade de todos na organização e que é dela que surgem as receitas, o dinheiro. Profissionalizar a gestão implica, como consequência, na determinação de responsabilidade individual, setorial, departamental e organizacional dos valores a serem incorporados aos produtos e serviços. E avaliar diariamente a prática da incorporação. Nada, portanto, de colocar nos ombros de um ou poucos indivíduos a responsabilidade para com a geração das receitas da organização. Receitas é responsabilidade de todos. E "todos"inclui desde o limpador de vasos sanitários até o reitor ou diretor geral.

É muito difícil fazer dinheiro, dizem muitos, trabalhando-se com ensino, pesquisa e extensão; é muito fácil fazer e ganhar dinheiro, dizem alguns poucos, entregando aos clientes aquilo que eles querem, ainda que não chamem o que está sendo entregue de ensino, pesquisa ou extensão. O princípio constitucional da racionalidade e da legalidade são utilizadas por essas organizações bem sucedidas para inovar em cadeias de valor que lhe trazem a independência financeira, especialmente no setor público, ainda que sejam apenas um ou algumas unidades. Esses exemplos, quase sempre vistos com desdém e inveja, servem para mostrar que quando se sabe o bem que se está fazendo, o dinheiro é apenas uma grata e inevitável consequência.


*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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