Palmas, 12/12/2017

Opinião

Ciência e Tecnologia

Para que servem as gerências táticas

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Para que servem as gerências táticas


Quando a maioria das pessoas olha um organograma, diagrama que representa as chefias de uma organização, não percebe que a maior parte dos quadradinhos que estão lá desenhados representam gerências táticas. De forma geral, nos organogramas há uma pequena quantidade de desenhos representando as gerências estratégicas e operacionais. E isso realmente é muito esquisito. Ora, se as gerências estratégicas gerenciam o ambiente externo e os resultados do ambiente interno e as gerências operacionais realizam o trabalho de produzir aquilo que as gerências estratégicas acertaram com o ambiente externo, o que fazem as gerências táticas, que são a maioria em qualquer organograma? Neste sentido, este artigo tem como finalidade esclarecer para que servem as gerências táticas nas organizações de ciência e tecnologia.

Vamos imaginar um time de futebol. Em determinado jogo, pode adotar uma dentre duas estratégias: ofensiva ou defensiva. Então estratégia diz respeito ao time todo, ao resultado pretendido por todo o time. Para que a estratégia seja colocada em prática, é necessário que cada jogador seja instruído sobre como proceder durante o jogo. Por exemplo, em uma estratégia defensiva, o goleiro pode ser instruído para retardar o máximo possível a reposição da bola ao jogo, mas sem correr o risco de ser penalizado com cartão amarelo ou vermelho por "cera". O jogador, individualmente, representa a parte operacional, no sentido de operar, verbo que vem do latim e que significa trabalhar, fazer, produzir.

Sintetizando até aqui: a estratégia diz respeito ao time todo e ao resultado que deve ser produzido por todos os jogadores. A operação é o que cada jogador, individualmente, tem que fazer para que o resultado pretendido possa ser colocado em prática. O resto, digamos, é o que chamamos de tática. Vamos explicar.

Em uma estratégia defensiva, o goleiro pega a bola e passa para os seus companheiros mais próximos, chamados zagueiros ou defesa. Isso quer dizer que o conjunto de jogadores chamados goleiro, lateral direito, lateral esquerdo, zagueiro central e cabeça de área fazem parte de um subgrupo do time chamado defesa. Em uma estratégia defensiva, a defesa precisa ficar a maior parte do tempo possível com a bola, mas sem correr o risco de o time adversário roubá-la. Para isso, os jogadores são instruídos pelo técnico sobre como proceder para cumprir essa missão específica. Missão defensiva da defesa.

Ao conjunto de jogadores chamados meia direita, meia esquerda e volante daremos o nome de meio-campistas. Sua missão, no nosso jogo hipotético de estratégia defensiva, é dupla: roubar a bola do adversário e permanecer com a bola o maior tempo possível. A finalidade é sempre ganhar tempo, para que no final seja garantido pelo menos o empate. Para que essa missão, também específica, seja cumprida, cada jogador é instruído pelo técnico sobre como proceder, como operar, como fazer o seu trabalho.

Finalmente, mas não o menos importante, aos jogadores chamados ponta esquerda, ponta direita e centroavante daremos o nome de ataque. O papel de cada jogador do ataque também é duplo na nossa estratégia defensiva: quando o time adversário estiver com a bola, ajudar a defender; quando sua equipe estiver com a bola, fazer gol. Novamente, o técnico deve instruir cada jogador sobre como proceder durante a partida.

Além das instruções individuais, para cada jogador, e dos subgrupos do time (defesa, meio campo e ataque), o técnico tem que instruir os subgrupos sobre como se relacionar um com os outros. O técnico vai dizer como a defesa deve se comunicar com o meio campo quando o time estiver sendo atacado ou quando estiver atacando; o que o ataque deve fazer quando o time estiver atacando ou sendo atacando; e assim por diante.

Pois é: tática é instrução. É a tática que diz como cada grupo deve se comportar. Também é a tática que diz como cada jogador deve operar. Noutras palavras, as gerências táticas interpretam as decisões estratégicas para que cada parte da organização (da mesma forma que o meio campo do time de futebol) e cada funcionário saiba exatamente o que fazer para que os objetivos de sua parte da organização e da organização como um todo possam ser alcançados. Tática também é organização.

Muitas vezes as decisões estratégicas são tão complexas, desafiadores e/ou difíceis de serem implementadas que exigem muitas gerências técnicas (todas são altamente especializadas) para compreender a decisão, desenhar as estratégias dos desafios e/ou identificar e anular cada causa dos problemas. Inversamente, as gerências táticas são provedoras de recursos, principalmente porque estão em contato direto com as equipes de operações e sabem com antecedência que recursos são necessários para que as obras, as operações não sofram solução de continuidade (forma boba de dizer "paralisar").

Nenhuma organização funciona sem tática. É que as táticas é que dão sentido à vagueza e ambiguidade de todo objetivo estratégico. Aliás, os objetivos estratégicos só são estratégicos porque são vagos. Se não fossem, se não precisassem de tradução, seriam objetivos táticos ou operacionais. A eficiência de uma organização, portanto, pode ser medida pela precisão das traduções feitas pelas suas gerências médias.

Infelizmente, não é isso o que acontece nas organizações de ciência e tecnologia. As gerências médias, aqui, não são ocupadas por especialistas em superar desafios e resolver problemas, habilidades técnicas exigidas para os ocupantes dessas posições. Em gerências táticas de ensino de graduação, por exemplo, praticamente nenhum gerente conhece todas as normas (leis, decretos, portarias, súmulas, instruções normativas etc.) do INEP/MEC que deveria conhecer, uma vez que a regulação é uma das exigências de gerenciamento dessa posição, assim como não sabem materializar os preceitos legais, outra habilidade requerida. Desenhar macroprocessos e calcular resultados com as técnicas de engenharia? Nem em sonho...

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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