Monday, 10 de December de 2018

OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Pró-reitor de extensão

06 Jun 2017

A impressão que se tem a partir da prática de muitas organizações de ciência e tecnologia é que confundem extensão com caridade. Essas organizações criam sistemas de arrecadação de comida e roupas para pessoas carentes, arregimentam seus alunos e servidores para diversos tipos de serviços voluntários, dentre outras iniciativas. Isso não quer dizer que essas atividades não possam ou não devam ser feitas. Pelo contrário. O que queremos chamar a atenção é que essas atitudes não podem e nem devem ser consideradas como extensão. 
Extensão é a atitude de resolver problemas da comunidade onde a organização de ciência e tecnologia está inserida a partir do uso de conhecimentos e habilidades de que dispõe, criada ou não por ela. Extensão é, então, a aplicação da excelência que a organização alcançou.

O que acontece, então, com a nossa realidade brasileira? Simples: como a maioria das organizações de ciência e tecnologia só têm esse nome, não têm capacidade de gerar soluções para problemas. Aliás, muitas delas não conseguem sequer, do ponto de vista técnico, identificar problemas! Para que um problema possa ser resolvido ou solucionado, a primeira etapa é a sua identificação e definição. Pois é, nem isso a maioria quase absoluta das organizações de ciência e tecnologia nacionais conseguem fazer.

Disso vem a primeira função do papel de pró-reitor de extensão: criar competências. Para criar competências, olhem que coisa interessante, o pró-reitor de extensão tem que ser tão capaz que terá que invadir as áreas de seus colegas pró-reitores de pesquisa, pós-graduação, ensino e outras atividades-fim para que possa criar produtos e serviços a partir da identificação das necessidades do ambiente, sua segunda função. Vejam como a coisa é simples de ser compreendida: o pró-reitor de extensão tem que ser capaz de racionar necessidades e suprimento dessas necessidades.

Vamos a um exemplo para que isso fique claro. Uma pró-reitora de extensão assumiu a posição e durante alguns meses mapeou três habilidades dos professores de sua instituição que poderiam ser transformadas em produtos e serviços. Um desses produtos foi a substituição de um componente de células fotovoltaicas por outro mais adequado à realidade de certa região brasileira, onde se situa sua organização. De posse do novo produto, foi pessoalmente apresentar a solução para um problema que afetava várias organizações locais. Depois que terminou as apresentações foram captados cerca de 50 milhões de dólares.

Deste exemplo vem a terceira função do pró-reitor de extensão: capacidade de negociação. Para isso, é necessário que tenha domínio pleno das ferramentas e procedimentos gerenciais e empreendedores. E capacidade de negociar significa traduzir em realidade concreta planos e projetos. É diferente de pessoas que só falam demais e não conseguem ouvir o que a outra parte tem a dizer. Pró-reitores com desempenho pífios confiam a negociação a pessoas desse perfil porque não sabem com precisão o que lhes compete fazer. E se tornam reféns do discurso vazio, que não consegue traduzir em objetivo o que toda organização de ciência e tecnologia precisa: recursos.

São os recursos os focos da quarta função do pró-reitor de extensão: a manutenção da saúde econômico-financeira da organização. É burrice uma organização de ciência e tecnologia querer viver apenas de mensalidades ou de repasses do governo. Mensalidades e repasses são voláteis, instáveis e incertas e devem corresponder no máximo a 30% das fontes de recursos de uma organização de ciência e tecnologia. Os 70% restantes devem vir daquilo que deveria ser competente: ciência e tecnologia. Se não consegue produzir conhecimentos e nem inventar soluções que sejam do interesse do ambiente externo, precisa repensar sua missão institucional.

Nas organizações públicas, além de ciência e tecnologia serem raros (o que se vê mais são discursos inflamados justamente daqueles que não sabem fazer), ainda há o agravante de que os poucos que sabem fazer e fazer têm a mesma remuneração e reconhecimento dos muitos que não sabem fazer e nem se interessam em aprender. É papel do pró-reitor de extensão, também, mapear os talentos da organização e acioná-los através da oferta de recursos e infraestrutura para que esses talentos gerem riquezas e soluções.

O pró-reitor de extensão não pode ficar parado, sentado, esperando que os talentos de sua organização lhe procurem para apresentar propostas de extensão. Essa atitude é tão infantil quanto o lojista que abre as portas e fica esperando o cliente chegar. O executivo é que tem que tomar a frente, o que não impede, naturalmente, que receba propostas. Mas receber propostas tem que ser raridade, principalmente para que o pró-reitor não se torne refém de sua inépcia. Além do mais, ficar esperando não é próprio dos líderes organizacionais, especialmente dos que se transformam em figuras singulares tanto na organização quanto no ambiente de atuação.

Como se pode perceber, se tem alguém que precisa de verdade exercer o papel de Executivo em uma organização de ciência e tecnologia, este é o pró-reitor de extensão. E, como ele, por imitação saudável, todos os que ocupam os postos de comando ao longo da cadeia hierárquica. Quando o pró-reitor de extensão funciona bem, dificilmente a organização de ciência e tecnologia conhecerá situações de crise, é improvável que seus alunos não sejam bem aceitos no mercado, é praticamente impossível que as organizações do ambiente não lhe acionem para resolver seus problemas e lhe será desconhecido qualquer problema mais grave por falta de dinheiro.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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