Friday, 14 de December de 2018

OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Pró-reitor de pós-graduação

02 Jun 2017

A gestão da pós-graduação é pouco compreendida na realidade brasileira. E, como consequência, parece mais repetições das graduações do que pós-graduação propriamente dita. Apesar dessa não ser a finalidade deste artigo, é importante ressalvar que a atividade fim da pós-graduação não é a formação de "profissionais de alto nível", como muitos programas equivocadamente apregoam. Pós-graduação tem como finalidade preparar o cientista. Pelo menos deveria ser assim, se fôssemos nos espelhar nos célebres excelentes programas de pós-graduação de outros países e alguns nossos. E cientista não é cientista se não produzir ciência. Como consequência, o que se tem visto, via de regra, no gerenciamento das pós-graduações é a manutenção de um esquema que não forma nem cientista nem profissional de alto nível. Este artigo tem como objetivo descrever a função de pró-reitor de pós-graduação de organizações de ciência e tecnologia.

A realidade de outros países, considerados desenvolvidos, mostra que a maior parte dos doutores, produto final dos sistemas de pós-graduação, que teriam a formação consolidada como cientistas, não está nas universidades. Está nas fábricas, no governo, nas organizações privadas. Isso cai por terra uma concepção completamente equivocada, especialmente no norte do Brasil, de que mestre e doutor são preparados para ser professores. Com raríssimas exceções, mas raríssimas mesmo, algum programa de pós-graduação brasileiro apresenta alguma disciplina pedagógica. A partir de levantamento que fiz anos atrás, a cada 100 programas de pós-graduação apenas 2 apresentavam uma disciplina pedagógica.

O que esses programas fazem é repetir, de outra forma, conjuntos de conhecimentos da graduação, acrescidos de aprofundamento em técnicas e métodos de pesquisas. São raros os programas que têm um plano bem definido de formação em pesquisas. Planos bem definidos significam esquemas de trabalho diários, em que o pós-graduando acompanha seu orientador nos seus afazeres científicos, aprendendo com ele a lidar com detalhes e grandes decisões de investigações científicas. A maior parte do tempo de estudo nas pós-graduações é gasta em confinamentos em sala de aulas com aulas de repetição da graduação.

Mas o que isso tem a ver com o gerenciamento da pós-graduação? O que tem a ver com a função de pró-reitor de pós-graduação? Tudo! Em primeiro lugar, o pró-reitor e suas equipes devem definir o modelo de pós-graduação que precisa adotar: se voltado para a formação de cientistas, se direcionado para a "consolidação da formação profissional", para a formação de professores ou modelos mistos, como pesquisador e professor. E como se faz isso? Novamente deve entrar em cena aqui a primeira regra de gestão: ver o que o ambiente precisa.

Todo esquema gerencial tem início justamente na identificação da necessidade do ambiente. A partir do mapeamento dessas necessidades, a organização as interpreta em esquemas de produção. Aqui são definidos os programas de pós-graduação que é capaz de executar para o suprimento das necessidades do ambiente. A partir do desenho do sistema de produção (que na verdade é chamado de sistema de formação de pós-graduados) a organização é capaz de saber que pós-graduados irá entregar ao ambiente (objetivos) e como irá fazer (estratégia), o que lhe permite fazer a previsão de formação e projetá-la para o longo prazo.

Esse plano de produção exige, como segunda etapa, o processo de organização. Aqui o pró-reitor e sua equipe vai definir a) que pessoas serão necessárias, b) como o trabalho vai ser executado, c) detalhar o esquema de produção, d) organizar o espaço físico e d) adquirir máquinas, equipamentos, tecnologia e outros tipos de recursos para a concretização dos objetivos e metas pretendidos. Essa segunda etapa é fundamental para que a terceira possa ser desenhada, que é o processo de direção.

O pró-reitor de pós-graduação lidará a maior parte do tempo com pessoas que estarão à frente dos programas de pós-graduação. Precisará, portanto, conhecer os tipos e estilos de liderança específicos para cada programa e para cada grupo de professores-pesquisadores à frente das linhas e grupos de pesquisa, assim como estabelecer a forma mais adequada de motivação e satisfação dos componentes e stakeholders dos programas. Para que os esquemas de liderança e motivação/satisfação funcionem, é necessário um sistema de comunicações que permita ao pró-reitor e seus líderes o acompanhamento simultâneo das previsões e execuções. As previsões e execuções são a matéria-prima para o processo de controle, quarta e última etapa do processo gerencial da pós-graduação.

O controle de qualquer processo ou produto se faz a partir de quatro etapas. A primeira é a padronização, cuja finalidade é fazer com que todos entendam com precisão o que está entre os limites inferior e superior de desempenho; a segunda é a mensuração, que se preocupa com contar cada unidade de produto produzida ou cada falha detectada; a terceira é a avaliação, que nada mais é do que comparar o padrão com o que foi efetivamente executado, apontando sempre conformidade ou desconformidade com o padrão e com a meta pretendida; enquanto a quarta e última etapa é o replanejamento, que só será feito se houver desconformidade detectada na etapa de avaliação.

Como se pode perceber, o pró-reitor de pós-graduação realiza as mesmas atividades que todo gerente precisa realizar. Mas o faz com vistas à consecução de objetivos de longo prazo, geralmente mais de 10 anos! Ora, para que os objetivos de longo prazo se efetivem, é necessário saber o que precisa ser feito agora, no imediato, no curtíssimo prazo. Em organizações de ciência e tecnologia multicampi, os pró-reitores de pós-graduação lidam com grandes números, que são a consolidação dos números de cada programa. Esses números são a base para a prestação de contas com os financiadores e stakeholders, realimentando todo o sistema.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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