Wednesday, 20 de February de 2019

OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Quadro de aquisições

15 Feb 2017

A infraestrutura física talvez seja o principal item de investimento nas organizações de ciência e tecnologia. Isso é decorrente de um fato inusitado naquelas organizações cujo quadro gerencial é extremamente amadora: não se sabe como a organização quer estar no futuro. É isso mesmo. Pergunte para qualquer reitor, pró-reitor ou diretor geral de qualquer instituição ou organização de ciência e tecnologia nacional "como sua organização pretende ser vista daqui a 30 ou 50 anos?". Se alguém responder, muito provavelmente isso é o desejo dele, dirigente, e não que seja algo formal, racionalmente deliberado de forma técnica e participativa. Como na metáfora do Gato de Alice, para organização que não sabe aonde quer chegar qualquer caminho lhe serve. Só que esqueceram de avisar que qualquer caminho leva ao fracasso. Este artigo tem como objetivo mostrar a essencialidade do quadro de aquisições no gerenciamento financeiro de organizações de ciência e tecnologia.

Gerenciar é decidir, hoje, como queremos que o futuro seja. Dito de outra forma, são os gestores que constroem o futuro. E qualquer que seja o futuro, sempre terá, digamos, uma cara, um rosto, algo passível de representação pictórica ou diagramática. Neste sentido, uma maquete de um campus hoje e outra do mesmo campus no futuro de 30 anos sinalizam a dinâmica que a gestão pretende lhe imprimir. Gerenciar é isso: é mostrar com se quer ou pretende que a organização esteja no futuro. E para isso existem os planos, que fazem a mesma coisa que a maquete faz. Só que o fazem em formato numérico. E é aqui que entram em cena um dos grandes ausentes dos gestores de ciência e tecnologia: as aquisições.

A lógica é simples e estupidamente fácil de entender: tudo o que é feito ou precisa ser feito consome recursos. Como os recursos não caem do céu, precisam ser adquiridos. Então, nada mais natural que todo plano tenha, também, um quadro de aquisições. Isso significa, mais uma vez, que a necessidade de conhecimentos de gestão financeira não pode se resumir ao pessoal lotado nos departamentos financeiros. É obrigação de todo e qualquer indivíduo desempenhando o papel de gestor, seja ele um simples coordenador de curso de graduação ou o reitor de uma grande universidade ou instituto federal, ter o conhecimento e as habilidades mínimas de finanças. E o quadro de aquisições é um deles.

Se alguém deseja realizar um treinamento com os técnicos administrativos de uma determinada unidade, por exemplo, precisa fazer a listagem dos recursos. Isso todo mundo faz, muitos vão dizer. A experiência tem mostrado que não é bem assim. Não é feita uma listagem de tudo o que é preciso, a quantidade, a unidade de medida, o custo unitário e o custo total, em primeira instância, digamos assim. Pode ser que seja necessária a contratação de um ministrante do curso. E aí? Nas organizações públicas, há exigências legais para que a contratação ocorra; nas organizações particulares, ainda que não haja o imperativo legal, há o discricionário custo-benefício. Perceba que, na prática, a teoria que se tem aplicado é outra.

Imagine-se a expansão com a construção de um novo campus. Aqui o quadro de aquisições mostra todo o seu poder de necessidade de existência. O que se tem visto é uma festa de aditivos nas organizações públicas justamente pela incapacidade de raciocínio financeiro. Quase sempre faltam inúmeros itens de máquinas, equipamentos, tecnologias e serviços essenciais. Isso significa que não se está conseguindo pensar nem o básico. E tudo isso tem um custo. Custo extremamente alto, como se pode demonstrar aos turbilhões. A consequência disso é que um empreendimento que teria um custo X terá valores adicionados que até duplicam o desembolso previsto inicialmente.

A outra parte, completamente esquecida, é com a manutenção. E isso, por incrível que pareça, é uma prática generalizada. É uma verdadeira epidemia gerencial. Constroem-se laboratórios, mas não são previstos os equipamentos e/ou insumos; constroem-se o espaço físico do laboratório, mas esquece-se da inclinação ou da iluminação; preveem-se uma série de laboratórios para novas construções, mas quando tem dinheiro disponível constrói-se uma piscina. A mente preparada não consegue ter uma visão panorâmica do processo gerencial, um ir do presente ao futuro e voltar, ano a ano, visualizando-se, em formato de filme que se avança no tempo e que se retrograda, a dinâmica que se pretende imprimir no ciclo de vida daquela organização.

Isso é uma comprovação inconteste de que não há, efetivamente, preocupação com o futuro. Quando dizemos futuro não queremos dizer que as pessoas não saibam que terá um ano 2020, 2030, 2100 e que é provável que a organização que dirigem possa sobreviver até lá. Estamos nos referindo ao desenho em um mapa, como em uma maquete, como a organização sob sua responsabilidade, agora, pretende estar. E, mais importante de tudo, qual é a sua contribuição, sua e de sua equipe, para a concretização, a materialização daquele futuro, que deveria ser a expressão do desejo da coletividade organizacional.

Muitas organizações de ciência e tecnologia tem um Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI). Na verdade, só se faz uma pequena parte de um PDI. Não se avança rumo aos desdobramentos plurianuais, às metas, medidas, indicadores e métricas. Os quadros de aquisições aparecem justamente aqui. Quadro de aquisições são quadros de recursos incorporados que precisam ser imobilizados para que estruturem o funcionamento da organização em direção ao futuro desejado. Sem quadro de aquisições não há planejamento, não há gestão, não há raciocínio, não lógica... E, infelizmente, não haverá nada. Mas haverá futuro. Aquele futuro que o sabor dos ventos produzir.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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