Sunday, 21 de July de 2019

OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Reitor

24 Apr 2017

O reitor não é apenas o CEO de uma organização de ciência e tecnologia. Ele é o estadista organizacional. Pelo menos deveria ser. Infelizmente, o que se vê em muitas dessas organizações são pessoas perdidas investidas no cargo, tão perdidas que não fazem ideia de seu papel como condutoras da organização rumo ao futuro desejado pela sua comunidade, em conformidade com os desafios impostos pelo ambiente externo. Na verdade, são poucos os indivíduos na posição de reitor que sabe e consegue raciocinar com esses dois conceitos centrais gerenciais. E o resultado a que se presencia quase todos os dias são fracassos de vários tipos, predominando a falta de capacidade das organizações sob seu comando de cumprir sua missão institucional. Este artigo tem como objetivo descrever a função de reitor (e similares) nas organizações de ciência e tecnologia.

Proveniente do termo latino Rector, que significa "aquele que governa" ou "quem tem o poder", atualmente essa posição gerencial é mais hierárquica. Isso quer dizer que quem está investido nessa posição não deveria ter responsabilidades gerenciais da mesma forma que o gerente financeiro tem responsabilidades sobre a entrada, saída e prestação de contas dos recursos financeiros. Responsabilidade gerencial é sempre um misto de comando e saber fazer, tecnicamente: conhecimentos e habilidades de gestor.

Reitores das grandes universidades mundiais (e algumas brasileiras) já cumprem com eficiência a moderna função. Suas responsabilidades incluem, logicamente, tudo o que se passa na organização sob seu comando, mas o seu papel específico individual é com o ambiente externo. Em termos práticos, se um pró-reitor ou coordenador de curso comete alguma desonestidade ou crime, o reitor é corresponsável porque toda a organização é de sua responsabilidade. Além disso, o reitor tem objetivos claros e missões específicas que nenhum outro ocupante de cargo poderá, legalmente, fazer.

Em termos técnicos gerenciais, internamente o reitor deveria ser um líder. O líder é aquele indivíduo com capacidade técnica e moral capaz de inspirar nos liderados uma vontade de fazer coisas para o bem da organização que, sem essa inspiração, jamais fariam. Noutras palavras, o reitor é alguém que tem e saber usar o poder. Esse poder é uma força que move as pessoas a segui-los, de maneira que quase sempre se torna uma figura norteadora de ações. Aqui, a fonte desse poder é sua estética comportamental, suas ações morais pretéritas.

Para o ambiente externo, que compõe o grande universo organizacional, o reitor é um estadista. Como estadista, deveria ter abertura e honra em adentrar qualquer tipo de organização, pública, privada ou do terceiro setor, porque deveria ser detentor de conhecimentos técnicos reconhecidos pelos seus pares cientistas e por toda a comunidade de abrangência das ações da organização que comanda. O reitor deveria ter esse grau de receptividade externa devido à sua capacidade individual de articulação técnica e à da sua organização de ciência e tecnologia que, quando direcionadas para determinado problema, seriam capazes de resolvê-lo.

A lógica que comanda toda essa articulação técnica e moral pode ser compreendida a partir das atitudes do reitor. A primeira delas é a busca desse profissional de compreender as dinâmicas internas e internas de evolução para compreender o longo prazo. Isso confere ao reitor uma mente privilegiada de construir e desconstruir cenários. Como consequência, a segunda atitude é a necessária colaboração de profissionais mais competentes do que ele para as posições-chave. Como são posições gerenciais estratégicos, não colocaria na pró-reitoria de ensino alguém do ensino, mas um gerente de ensino mais capaz do que ele mesmo, se estivesse conduzindo este setor da organização. É que as ações do reitor deveriam ser magnânimas, como o próprio pronome de tratamento que lhe é dado denota.

Mas, infelizmente, não é esse perfil de reitor que se observa nas organizações de ciência e tecnologia nacionais. Quase sempre, essas figuras são extremamente limitadas, e muitos são colocados nessa posição apenas por conveniência de uma tradição ou dos interesses pessoais de alguns líderes partidários. E quem sofre as consequências disso tudo é a própria organização, seu corpo funcional e o ambiente, que não recebe aquilo que investiu para obter.

É por isso que se vê reitor redigindo memorandos porque não acredita que sua secretária seja mais eficiente em fazer esse tipo de redação do que ele, da mesma forma que há reitores que impedem seus próprios subordinados para fazer funcionar com adequação o setor para o qual foi legalmente nomeado. A ausência de conhecimentos e habilidades técnicas gerenciais faz com que muitos reitores comandem suas organizações como se fossem suas residências ou seus sítios e os servidores institucionais fossem seus capatazes e capangas. Há reitores de organizações públicas que chegam a confundir o dinheiro do caixa como se fossem suas contas bancárias pessoais.

O reitor como estadista é o principal motivo do ambiente externo alocar recursos na sua organização. Reitores sem esse perfil apenas passam pelo poder para serem esquecidos logo em seguida ou serem lembrados de forma ridicularizada e quixotesca. Reitores com esse perfil conseguem arregimentar pessoas internas e externas para impulsionar o desenvolvimento de todos por demonstrar suas capacidades de realização. Reitores sem esse perfil são presas fáceis de acólitos e aduladores, o que lhes causa a ilusão de que são amados e respeitados por seus conhecimentos, habilidades e atitudes. Reitores deveriam ser pessoas adultas, maduras, mas suas vaidades e carências afetivas e morais têm feito a muitos cativos daquilo que lhes falta. E o que lhes falta não lhes move para consegui-los. Move-lhes para o aprofundamento do fracasso.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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