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PAULO COELHO

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Publicada em 22/06/2010
 
 

A plena consciência


Diz Thich Nhat Hanh (“Vivendo Buda, Vivendo Cristo”):

“Em toda tradução religiosa existe uma prática de devoção, e outra de  transformação. Devoção significa confiar mais em nós mesmos, e no caminho que  seguimos. Transformação é praticar as coisas que este caminho nos impõe”.

“Quando você diz: ‘estou determinado a estudar medicina’, esta frase exerce  um impacto na sua vida, mesmo antes de se matricular numa escola. Você vê este  passo como algo positivo, e quer avançar em direção a ele. O mesmo acontece em  qualquer tradição religiosa”.

Thich Nhat Hanh explica que a chave da paz é a plena coincidência. Quando  bebemos um copo d’água com absoluta consciência do que estamos fazendo,  entendemos o que significa a palavra “iluminação”: ter a visão clara a respeito de  alguma coisa.

Junto com a consciência de nossos atos, vem a responsabilidade pelo que  fazemos. Isso nada tem a ver com preocupação.

Vamos dividir a palavra preocupação em duas: pré-ocupação. Ou seja,  ocupar-se de algo antes que aconteça. Tentar resolver problemas que ainda não  tiveram tempo de se manifestar. Imaginar que as coisas, quando chegam, sempre  escolhem seu pior aspecto.

Há, é claro, muitas exceções. Uma delas é o herói desta pequena história:   

Um velho rei da Índia condenou um homem à forca. Assim que terminou o  julgamento, o condenado pediu:

            - Vossa Majestade é um homem sábio, e curioso com tudo que os seus  súditos conseguem fazer. Respeita os gurus, os sábios, os encantadores de serpentes,  os faquires. Pois bem: quando eu era criança, meu avô me transmitiu a técnica de  fazer um cavalo branco voar. Não existe mais ninguém neste reino que saiba isto, de  modo que minha vida deve ser poupada.

O rei imediatamente mandou trazer um cavalo branco.

- Preciso ficar dois anos com este animal – disse o condenado.

- Você terá mais dois anos – respondeu o rei, a esta altura meio desconfiado.   – Mas se este cavalo não aprender a voar, será enforcado.

O homem saiu dali com o cavalo, feliz da vida. Ao chegar em casa,  encontrou toda a sua família em prantos.

- Você está louco? – gritavam todos – Desde quando alguém desta casa sabe  como fazer um cavalo voar?

- Não se preocupem – respondeu ele. – Primeiro nunca alguém tentou  ensinar um cavalo a voar, e pode ser que ele aprenda.

“Segundo, o rei está muito velho, e pode morrer nestes dois anos.

“Terceiro, o animal também pode morrer, e eu conseguirei mais dois anos  para treinar um novo cavalo. Isso sem contar a possibilidade de revoluções, golpes  de estado, anistias gerais.

“Finalmente, se tudo continuar como está eu ganhei dois anos de vida, onde  posso fazer tudo o que tenho vontade: vocês acham pouco?”

 

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