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PAULO COELHO

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Publicada em 06/07/2010
 
 

Via do Sul e Via do Norte


A história a seguir é contada pelo Sheikh Qalandar Shah, no seu livro   “Asrar-i-Khilwatia" (Segredos dos Solitários):

No lado oriental da Armênia existia um pequeno vilarejo com duas ruas  paralelas, chamadas respectivamente Via do Sul e Via do Norte. Um viajante,  vindo de muito longe, passeou pela Via do Sul, comprou algumas cebolas para  comer, e seguiu para a Via do Norte. Assim que chegou ali, os comerciantes  notaram que seus olhos estavam cheios de lágrimas.

“Alguém deve ter morrido”, disse o açougueiro para o vendedor de tecidos.   “Veja como este pobre estranho, que acaba de chegar dali, está chorando!”

Uma criança ouviu o comentário e, como sabia que a morte era algo muito  triste, começou a chorar histericamente. Pouco tempo depois, todas as crianças  daquela rua estavam chorando.

O viajante, assustado, jogou fora as cebolas que estava descascando para  comer e sumiu.

As mães, entretanto, preocupadas pelo pranto das crianças, logo foram  procurar saber o que estava acontecendo, e descobriram que o açougueiro, o  vendedor de tecidos, e - a esta altura - vários comerciantes estavam  preocupadíssimos com uma tragédia que ocorrera na Via do Sul.

Os boatos começaram; e como a cidade não tinha muitos habitantes, em  breve todos os que moravam nas duas ruas sabiam que alguma coisa horrível havia  acontecido. Os adultos começaram a temer o pior; mas preocupados com a  dimensão da tragédia, resolveram não perguntar nada, a fim de não piorar a  situação.

Um homem cego, que morava na Via do Sul e não entendia o que estava  acontecendo, resolveu indagar:

“Por que tanta tristeza nesta cidade que sempre foi um lugar tão feliz?”

“Algo muito grave aconteceu”, respondeu um dos habitantes. “As crianças  choram, os homens estão com a testa franzida, as mães pediram para que seus filhos  voltassem para casa, e o único viajante que visitou esta cidade em muitos anos,  partiu com os olhos cheios de lágrimas. Talvez a peste tenha chegado à outra rua.”

Não foi necessário muito tempo para que o rumor de uma doença mortal,  desconhecida, havia atingido cidade. Como, entretanto, o choro havia começado  com a visita do viajante à Via do Sul, ficou claro para os moradores da Via do Norte  que a peste tinha começado ali. Antes que anoitecesse, os habitantes de ambas as  ruas já haviam abandonado suas casas, e partiam em direção as montanhas do Leste.

Hoje, séculos depois, o antigo lugarejo por onde passou um viajante  descascando cebolas ainda continua deserto. Não muito longe dali, surgiram duas  aldeias, chamadas Via do Leste e Via do Oeste.  Seus habitantes, descendentes dos  antigos moradores do vilarejo, ainda não se falam, já que o tempo e as lendas se  encarregaram de colocar uma grande barreira de medo entre eles.

Comenta o Sheikh Qalandar Shah: “Eu tenho sempre a possibilidade de  descobrir a origem de um problema, ou escolher aumentá-lo de tal maneira que  termino sem saber onde ele começou, qual a sua dimensão, como pode afetar minha  existência, e como é capaz de me afastar das pessoas que antes amava.”

 

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