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Opinião

Enigma Machadiano

10 Sep 2008

Machado de Assis faleceu em 1908, ano em que nascia Guimarães Rosa, os dois maiores ficcionistas nacionais. Ambos deixaram obras imorredouras, cada vez mais lidas e estudadas, sendo detentores das maiores fortunas críticas do país, talvez igualados apenas por Euclides da Cunha. Ambos criaram personagens que integram o universo cultural brasileiro e também semearam, ao longo de seus escritos, alguns enigmas que têm intrigado os analistas, inclusive estrangeiros, sem que consigam chegar a uma conclusão definitiva, apesar do muito que têm escrito a respeito. Sobre os enigmas de Rosa, já escrevi em outra ocasião, de sorte que vou me ater aqui a apenas um de Machado de Assis: o enigma Capitu e seu olhar oblíquo de cigana dissimulada.

Talvez “Dom Casmurro” não seja o melhor romance de Machado, mas é, sem duvida, o mais belo e o preferido dos leitores, com certeza também o mais conhecido. É nele que surge a figura fascinante de Capitu, amiga de infância e depois esposa de Bentinho. Quando nasce o filho do casal, o marido passa a desconfiar da mulher diante da incrível semelhança do menino com seu amigo Escobar. Surge, então, o angustiante problema: Capitu traiu Betinho? Seria Ezequiel filho de Escobar? “A habilidade narrativa chega a tal patamar com essa obra, que até hoje se discute se houve ou não a traição” – afirma um crítico. E com toda razão, porque, em busca de resposta, esse romance tem sido lido, relido, treslido, analisado, interpretado e dissecado sem resultado. Enquanto isso, Capitu continua incólume, sempre linda e fascinante, com seus olhos de ressaca e o olhar de cigana oblíqua e dissimulada.

No plano literário, foram baldados os esforços para resolver a questão. Nem os críticos brasileiros e nem tampouco o inglês John Gledson, especialista em Machado, entre outros, conseguiram desvendar o mistério. Tudo ficou no terreno do palpite e da especulação, segundo a opinião do leitor, como jurado ou juiz leigo. Surgiu a idéia de submeter Capitu a um julgamento de natureza legal, pesando os prós e os contras encontrados no romance, como provas judiciais de um processo e dentro de critérios rigidamente jurídicos. Entre estes julgamentos está o de Oliveira e Silva, antigo magistrado aqui, no Estado de Santa Catarina, e depois no Rio de Janeiro, em livro muito comentado na época de sua publicação e que recebi do autor com simpática dedicatória. Trata-se de “Julgamentos Fictícios (À Luz da Criminologia), publicado em segunda edição pela Horizonte Editora (Brasília – 1980).

Com sua vasta experiência judiciante, aliada à vivência literária de escritor e poeta, o magistrado analisou a situação em detalhes, sopesando circunstâncias e indícios. Descobre provas indiciárias muito tênues, daquelas que podem configurar o crime aos olhos do público, mas são insuficientes para fundamentar uma condenação judicial. E, assim, como quem aprecia uma denúncia à luz da prova, exara o veredicto: “Procede, assim, a absolvição de Capitu, dentro de nosso sistema probatório, mesmo que reste o prazer intelectual da dúvida.”

Inocentada pela lei dos homens, a enigmática Capitu prosseguirá pelos tempos com seus olhos de ressaca e o olhar oblíquo de cigana dissimulada. E a suspeita de Bentinho seguirá corroendo sem piedade sua alma sofrida. Em sua vida solitária e triste, ele repetirá os versos de J. Peixoto Jr.: “Falta-me o sono nesta noite escura, / Minhas certezas tornaram-se incertas, / Não há conforto nesta cama dura, / Prossigo com as pálpebras abertas.”

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