Monday, 18 de November de 2019

ESPECIAL


Depois daquela viagem

24 Jul 2008

Valéria Piassa Polizzi era uma jovem como todas as outras. Aos 16 anos de idade, namorava um rapaz bem mais velho, de 25 anos. Namoro conturbado, ciumento, violento. E quente. Desinformada sobre os perigos das doenças sexualmente transmissíveis, aceitou quando o namorado quis transar sem camisinha, afinal, "ela não era puta" e só com puta é que era preciso usar preservativo. Dois anos depois do fim desse namoro, Valéria descobriu que era portadora do vírus da AIDS.

Quase dez anos mais tarde, quando estava para lançar o livro Depois Daquela Viagem, seus amigos e familiares acharam que a obra não ia vender muito, por já ter, na capa, a revelação de que se tratava do relato da vida de alguém com AIDS. Todos estavam redondamente enganados. Em menos de um ano, o livro já está na 12ª edição. Vendeu mais de 42 mil exemplares.

Hoje, aos 23 anos de idade, Valéria viaja pelo País dando palestras e participando de encontros com jovens. Em entrevista ao Portal Radcal ela diz que a sua tarefa é trabalhar para vencer a desinformação, o preconceito e a ignorância sobre a AIDS.

 

Como você contraiu o vírus?

Aos 16 anos de idade, numa relação sexual com o meu primeiro namorado. Ele faleceu um tempo depois. Descobri que estava com Aids dois anos depois de termos terminado o namoro. Não o encontrei depois disso. Mas não o responsabilizo. Sempre digo que, numa relação que prescinde da camisinha, os dois são igualmente responsáveis. Eu tenho 50% de responsabilidade, já que aceitei a relação sem a camisinha.

 

Como passou a viver?

No começo, foi muito difícil. Há dez anos, não havia informação nenhuma sobre a doença, eu não sabia como a doença era, como seria o tratamento. Ninguém falava nada. Se eu estivesse com câncer, saberia que deveria fazer quimioterapia, que perderia os cabelos. Mas sobre Aids ninguém falava nada. Os próprios médicos aconselhavam a gente não contar para ninguém, só para a família, para não sofrer discriminação. Foi assim durante seis anos. Em 1993, fui para a Califórnia e lá aprendi a ver a Aids com outros olhos. Aqui, só ouvia que Aids mata. Lá, aprendi o que se podia fazer para melhorar o nível de vida de quem estava com o HIV. Não se falava em morte. Em contato com soropositivos, me disseram que eu estava viva e tinha que tocar a vida para frente. Voltei disposta a fazer alguma coisa, mas voltei doente. Antes, eu me recusava a tomar remédio. Quando voltei, comecei a tomar. Na época só existia o AZT. Sarei e comecei a escrever o livro. Fiquei três anos escrevendo.

 

O livro conta toda essa experiência?

É um livro autobiográfico e não fala só de AIDS. Eu conto como me infectei, as dificuldades que tive em aceitar, mas falo também de vestibular, de amizade, de vida normal.

 

Você sentiu na pele o preconceito contra os soropositivos?

Nunca tive uma reação de preconceito muito direta. Não perdi amigo algum depois que resolvi contar para eles que tinha o vírus. Aliás, foi idéia deles eu escrever o livro contando tudo. Depois que me tornei uma pessoa pública, as pessoas me reconhecem e vêm até a mim para me dar parabéns pela coragem de escrever o livro. Tenho viajado por todo o Brasil dando palestras em escolas falando sobre Aids, escrevo uma coluna numa revista juvenil, a Atrevida, falando sobre isso. Comecei a fazer disso o meu trabalho.

 

Nesses contatos com os jovens, como você sente a informação deles?

Eles têm informações desencontradas. Não sabem ainda bem ao certo que os remédios acabaram com as diferenças entre ter o vírus e ter as doenças oportunistas e que hoje é possível levar uma vida normal. Mas já sabem como se pega, não têm mais aquelas dúvidas primárias sobre contrair o vírus através de um beijo.

 

E o que você acha das campanhas de conscientização do Governo?

Durante muito tempo, foram péssimas. Agora, elas têm melhorado. Infelizmente, aqui no Brasil ainda existem crianças soropositivas que enfrentam problemas na escola. Mas já melhorou muito o nível das campanhas. Outro dia eu estava conversando com o Pedro Chequer, que é coordenador do Programa Nacional de DST-AIDS, e ele me disse que é muito caro manter no ar essas propagandas em horários comerciais das emissoras de televisão. Que as próprias emissoras deveriam criar campanhas esclarecedoras, como a MTV, por exemplo. Nas escolas, os próprios alunos poderiam iniciar campanhas de conscientização. A responsabilidade não pode ser só do Governo.

 

Por que essa qualidade maior das campanhas não se reflete em resultado? Por que continuam crescendo os números dos infectados pelos vírus?

Eu não teria dados para te dar. Mas sinto que só o aumento da curiosidade já é um fator positivo. As pessoas estão muito abertas para falar sobre o assunto. Pra mim, a curiosidade é fundamental.

 

Nas suas palestras, o que você aconselha aos jovens?

O uso de camisinha, mas também faço com que percebam que sexo não é só penetração. Há a masturbação a dois, por exemplo. E digo que é preciso ter bastante informação, conversar muito com a pessoa com quem está se relacionando. E se essa pessoa não estiver preparada para usar camisinha, não está preparada para transar.


(fonte: Site da autora: www.terravista.pt/baiagatas)

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