Friday, 18 de October de 2019

GERAL


A não política da política

16 Nov 2009

Prefiro começar este artigo com uma citação da Ilíada de Homero: “Odiável como os portões de Hades é para mim o homem que diz uma coisa e esconde outra em seu coração”.

A política está em pane: sua linguagem é econômica; seus apoiadores são os institutos de pesquisas; quem define o seu sentido é a mídia e os “políticos profissionais”; sua razão de ser não é mais a liberdade, mas a escravização dos “cidadãos que são vistos como ajudantes desinteressados; o político não é mais o homem que mira o bem comum, mas o interesse próprio através de promessas mirabolantes, e faz questão de honrar o título de homem de discurso falso, sem “ética” e sem identidade. Todos os “políticos profissionais” querem e prometem transformar a economia, o mundo, o país, o Estado ou o município. Porém, no final, transformam a própria vida e desgraçam a vida dos “cidadãos” que neles confiaram.

Em períodos eleitorais as pesquisas de opinião são, no fundo, uma forma “legal” e poderosa, principalmente, quando contam com a máquina governamental. Elas conseguem fazer os menos esclarecidos desistirem dos seus objetivos.  Em muitos casos, quando as pesquisas de opinião afirmam que alguém (um candidato) está “virtualmente” à frente, muitos acabam desistindo daquele (candidato) que está “virtualmente” atrás. É que a grande massa não consegue entender que os candidatos não estão à frente nem atrás, mas apenas no caminho. Quando, por exemplo, o instituto francês CSA explicava constrangido, como relata Mattei (2002), que nenhuma pesquisa havia colocado Jospin em primeiro lugar antes do primeiro turno da eleição presidencial, em 23 de abril de 1995, porque o candidato socialista “não estava na frente” (sic) no momento das pesquisas, ele confundia pura e simplesmente o real com o virtual. De fato, Jospin não “estava” nem à frente nem atrás de outro candidato; ele nem sequer “estava” entre eles, pois nenhuma realidade lhe dava o privilégio de “estar” presidencialmente em algum lugar, uma vez que a eleição presidencial ainda não havia ocorrido. Na verdade, as pesquisas de opinião subjetivam a “vida” política e substituem a modalidade do real pela do possível. Supor que o futuro se submeterá à determinação de uma virtualidade anterior e afirmar, por exemplo, que o candidato virtual que não existe efetivamente será deputado, presidente, prefeito, vereador, governador, senador... Pela única razão de que é possível, significa eliminar a realidade das ações humanas na sua substancialidade e na sua contingência históricas, unicamente em benefício de sua possibilidade, a qual é reduzida, contraditoriamente, à “realidade” dessa possibilidade que, em última análise, não é senão a “realidade” do sujeito virtual inserido num campo político virtual.

Os “políticos profissionais” querem dominar o “poder” político a fim de dirigi-lo para o sentido que lhes convém. Assim, como disse Kolm (2000), como eles dependem do “sufrágio universal”, cuidam da própria imagem que é sempre forjada pela mídia que vive, por sua vez, sob a tirania do “índice de audiência”. Nessas condições, a política se apresenta com uma forma de espetáculo e o político um simples ator em um “vídeo game” surfando na onda, sabendo que isso não durará para sempre.
O “cidadão” precisa se libertar da tirania dos “políticos profissionais” e não fugir da política, pois a vida humana é política de ponta a ponta. Quer se queira quer não, linguagens políticas que nem sempre são cínicas são constantemente expressas: opiniões são trocadas a respeito da cidade sobre o que está bem ou não, convicções são forjadas no decurso das experiências públicas, frases feitas circulam a propósito das situações mais opostas. O “cidadão” precisa ser esclarecido, de uma vez por todas, que a política é uma arte de viver junto, num mesmo Estado ou numa mesma região; deve sempre mirar o bem comum e proporcionar a manifestação da liberdade; ela não pertence aos “políticos profissionais”. Não se faz política separadamente, em beneficio próprio ou uns contra os outros, mas todos juntos. Portanto, não “fazer política” é renunciar a uma parte do seu “poder”, o que é sempre perigoso, mas também a uma parte das suas responsabilidades, o que é sempre condenável. É preciso agir, lutar, resistir, inventar, salvaguardar, transformar... O cidadão precisa parar de querer ser enganado, dominado, controlado. A história não é um destino, ela é o que fazemos juntos, e isso é a própria política.  É preciso descobrir de novo o enorme espaço da “sociabilidade” e de uma política que não se identifica com as tagarelices televisivas ou com a inevitável visão limitada dos “políticos profissionais”.  

(*) José João Neves Barbosa Vicente é filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

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