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GERAL


Kátia Abreu

Brasil pode liderar produção de alimentos

12 Jun 2008

Depois de chegar à Câmara dos Deputados, em 2000, onde presidiu a Frente Parlamentar da Agricultura no Congresso, a senadora tocantinense Kátia Abreu (DEM) agora trabalha para assumir a presidência da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), da qual é vice-presidente.

Sua ligação com o campo começou aos 25 anos, quando terminava a faculdade de Psicologia e, grávida de dois meses, foi surpreendida pela morte do marido em um acidente aéreo. Para sustentar os filhos (um de quatro anos, outro de um ano e o terceiro a caminho), tornou-se empresária rural. Confira numa entrevista ao Jornal do Senado, que circulou nacionalmente na semana passada, os principais trechos de uma entrevista à Agência Senado.

 

Agência Senado – A tentativa de se relacionar o programa brasileiro de produção do biodiesel com a alta generalizada do preço dos alimentos em todo o mundo não passou de um equívoco ou a senhora detecta, nesses fatos, a ação de concorrentes?

Kátia Abreu – Com certeza! Essa acusação chega a ser irresponsável e ridícula. Dos 850 milhões de hectares agricultáveis no Brasil, temos 0,7% plantado com cana-de-açúcar. Se tivermos um aumento de 30% dessa área, estamos mexendo com nada em vista do que as possibilidades nos permitem. O que incomoda muito é que em todos os estudos que temos em mãos, em nível mundial, o Brasil, realmente, é a única fronteira agrícola que ainda tem espaço para aumentar sua produção.

 

A crise no setor de alimentos deve preocupar todos os governos, ainda que em graus distintos, independentemente de se tratar de países ricos ou pobres?

De fato, há problemas diversos em relação a essa questão. Primeiro, nós tivemos um aumento de consumo nos países emergentes, devido ao aumento da renda das pessoas. Segundo, houve um encarecimento dos produtos porque tivemos um aumento exorbitante do petróleo, que significa fertilizante e transporte mais caros, e que chegou a US$ 120 o barril. Terceiro, temos a questão do milho nos Estados Unidos, que ampliaram sua área plantada, deixando de cultivar soja e trigo. Quarto, com a crise americana no mercado da construção civil, muitos desses investidores redirecionaram seus investimentos para as commodities, o que também empurrou os preços para cima. Também tivemos problemas climáticos em algumas regiões, como na Austrália, em países da União Européia, e, principalmente, na Rússia.

 

Qual seria o papel reservado ao Brasil dentro desse quadro de dificuldades que o setor está sofrendo, em nível mundial?

 

O Brasil é o único país do mundo que tem fronteiras a serem abertas para poder alimentar com custos baixos e com alta produtividade. O Brasil hoje produz 140 milhões de toneladas de grãos (40 milhões são exportados), utilizando para isso 55 milhões de hectares. Se eu passar a produzir mais 100 milhões de hectares, vou produzir três vezes mais e vou conseguir alimentar cerca de 350 milhões de pessoas. Sem falar que nós ainda temos pastagens degradadas e áreas que legalmente podem ser abertas preservando as reservas legais, reservas permanentes.

 

Quais são os entraves que impedem a agricultura brasileira de atingir esse vigor?

Temos que aproveitar as necessidades alheias. O mercado é isso: falta em algum lugar, o outro abastece. Se somos um país promissor, com capacidade para abastecer o mundo, temos até a obrigação moral de contribuir. É claro que nisso tem ganho de dinheiro, de capital, mas isso não é crime. Mas temos algumas dificuldades para alcançar esses patamares. Dificuldades não do produtor rural. Da porteira para dentro, conseguimos fazer o nosso dever de casa. O grande problema é da porteira para fora.

 

Onde está o gargalo?

São vários. Em primeiríssimo lugar, logística. Nós não temos transporte que possa ser competitivo. Enquanto o mundo inteiro está investindo, em primeiro lugar, em hidrovias, em segundo, em ferrovias, e em terceiro, em rodovias, a nossa matriz de transporte está invertida. Nós estamos investindo quase 80% em rodovias. Se você transportar uma tonelada por mil quilômetros de rodovia, você gasta US$ 42; em ferrovia, serão US$ 26 e, em hidrovia, são US$ 18. Importantes as rodovias são, mas como braços para fazer os produtores chegarem às hidrovias e ferrovias.

 

E o governo acena com alguma mudança para a situação dos portos?

O PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] prevê investimentos no valor de R$ 2,7 bilhões em portos, no período de quatro anos. Nós temos 14 empresas que querem investir US$ 10,8 bilhões em portos e a legislação brasileira não deixa porque existe uma "resoluçãozinha" da Agência Nacional de Transportes Aquaviários [Antaq], de outubro de 2005, que diz que "você só pode fazer o porto se o investimento justificar que você tem carga própria para exportar. Você não pode exportar de terceiros mais do que 5%". Não tem meia dúzia de empresas no país que tenha produção própria para exportar. A resolução contrariou a Lei dos Portos e o artigo 21 da Constituição federal. Nós, agora, vamos destruí-la através da aprovação da [MP] 412, se Deus quiser (veja página 4).

 

A Organização das Nações Unidas apelou aos países ricos para que aumentassem suas doações. A senhora considera essa estratégia eficaz?

Eu acho que não deviam doar nada para ninguém, não. Deviam acabar com o subsídio. Quando eles acabarem com o subsídio, não agüentarão competir conosco, com a Argentina, com o Uruguai e com vários países africanos. Eles gastam US$ 1 bilhão por dia com subsídios.

 

E quanto à proposta de o Brasil abrir seu mercado para produtos manufaturados e, em contrapartida, os europeus e americanos reduzirem os subsídios pagos aos seus produtos agrícolas?

Acho importante que isso aconteça. Acredito que tenha que haver perdas e ganhos. Se o Brasil é competitivo na produção de alimentos – é imbatível! –, para que vai brigar para produzir aquilo em que não tem competência? Nós temos que trabalhar para fortalecer a indústria nacional e temos que expandir o nosso mercado, porque não adianta a gente produzir muito alimento e depois não ter para onde mandar.

 

Qual a relação que se pode estabelecer entre o desempenho da agricultura brasileira e o projeto de reforma agrária do governo?

Não vejo relação. Nós temos muitas pequenas propriedades que são produtivas em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Paraná, que são modelos de aplicação de tecnologia num nível bastante avançado, assim como também na formação administrativa. São produtores que, na sua grande maioria, aproveitam os nichos de mercado e fazem a diferença. No mundo inteiro, fora esses nichos, a pequena propriedade só sobrevive com ajuda do subsídio.

 

E quanto à reforma agrária?

Acho uma tristeza esses assentamentos e o que fazem com essas pessoas. Não existe uma reforma agrária. Esses movimentos sociais perderam o rumo, o objetivo. O foco deles é outro: é o comunismo, uma coisa do passado; é transformar o Brasil em Cuba. Isso é tão atrasado que eu nem discuto, nem faz parte do meu discurso. Em meu estado, sou votada em grande parte desses assentamentos.

 

No que consiste a principal falha dessa política agrária?

Na cabeça dos governantes – todos, geralmente, de formação urbana –, um pedaço de terra é o suficiente. Na realidade, quando eles ganham a terra, em vez de os problemas estarem resolvidos, é aí que começam todos os outros: técnicos, de mercado, de produtividade, de escala, de mão-de-obra, enfim, é uma dificuldade tremenda.

 

E qual seria a saída para a pequena propriedade?

Gostaríamos que a pequena propriedade fosse inserida no agronegócio. Se fizéssemos uma moratória com os assentamentos que existem hoje, e não criássemos mais nenhum, mas, em compensação, equipássemos todos eles com infra-estrutura e déssemos assistência técnica... É assim que o Primeiro Mundo faz. O pequeno proprietário tem de ser subsidiado.

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