Tuesday, 12 de November de 2019

GERAL


Pense ao assistir

30 Jun 2010

José  João Neves Barbosa Vicente

josebvicente@bol.com.br



Neil Postman em Amusing ourselves to death: public discourse in the age of show busness afirmou que  “a televisão (...) nos serve na medida do possível quando nos oferece o lixo da diversão; serve-nos ainda da pior maneira possível quando absorve o discurso sério (...). Seria oportuno que a televisão se tornasse pior, não melhor”..

Em meados do século XX algo inédito e revolucionário nos  meios de comunicação aconteceu: o surgimento da televisão, ou seja, o ver à distância como sugere a sua etimologia (tele-ver). Hoje, infelizmente, o uso dessa invenção humana está, como percebeu Sartori em seu livro Homo videns, transformando o homem “produzido pela cultura escrita” em um homem no qual a palavra vem sendo destronada pela imagem. Um homem que se apóia nos ombros da informação televisiva. Porém, como disse Baudrillard em seu livro À sombra das maiorias silenciosas, a “informação em lugar de transformar a massa em energia, produz ainda mais massa”.  

Além de destruir mais saber do que transmite, a televisão desloca a comunicação do contexto da palavra (seja impressa ou transmitida pelo radio) para o contexto da imagem. Esse deslocamento modifica essencialmente a natureza da comunicação.  Como afirmou Cassirer em Philosophie der symbolischen Formen, o homem vive em um universo simbólico. E totalmente resolvido naquilo que significa, a palavra é um “símbolo”. Ela leva uma pessoa a compreender apenas quando for entendida e sem dispensar, no entanto, a língua a que pertence (caso contrário, ela é apenas uma letra morta, um sinal ou som qualquer). Uma imagem, ao contrari o, não passa de uma representação visual. Para entendê-la, basta vê-la. Para vê-la, basta não ser cego. Afinal, não se vê a imagem em aramaico, hebraico, latim, grego, chinês, árabe, inglês ou alemão. Isso significa dizer que a palavra é, necessariamente, parte integrante e constitutiva de um universo simbólico, a imagem, infelizmente, não faz parte desse universo.

Muitas pessoas entendem que a televisão é uma continuação ou uma ampliação dos instrumentos de comunicação que a precederam. Para mim, no entanto, essa visão é equivocada. A televisão deve ser entendida como uma “realidade” radicalmente nova que, infelizmente, cria um tipo de homem incapaz de ter estímulos para leitura e para o saber transmitido pela escrita. Um homem sem substância que responde apenas aos estímulos audiovisuais. Isso acontece devido ao “poder” que tem a televisão não apenas de produzir imagens, mas de apagar os conceitos e atrofiar a capacidade humana de abstração e de compreender.

As mentes débeis se alastram com a propagação da televisão. Pessoas que nunca foram “treinadas” para pensar e nunca tiveram a curiosidade de perguntar, por exemplo, “assisto televisão para que?”. Para elas essa pergunta não tem validade. Pois, têm certeza que aquilo que vêem é verdadeiro, e que os eventos são vistos por elas tais como acontecem. São adeptas, certamente, de Walter Cronkite para quem a “imagem não mente”. Ora, a televisão pode mentir como qualquer outro instrumento de comunicação. O problema é que, a força de “veracidade” contida na imagem torna a sua mentira mais eficaz e por isso mesmo mais perigosa. Em síntese, na televisão as mentiras são despachadas melhor.

Empenhada em fortalecer e multiplicar os idiotas e, simetricamente, ignorantes, a televisão promove a extravagância e o absurdo. É necessário defender a “cultura escrita” da barbárie da “cultura audiovisual”. A leitura que exige solidão, concentração na pagina, capacidade de apreciar a clareza e a distinção cansa o homem da “cultura audiovisual”. Ele prefere o significado rapidíssimo da imagem sintética. É por esta que ele é seduzido e fascinado. Ele não quer saber do vinculo, da seqÿência raciocinada, da reflexão que necessariamente implica dobrar-se sobre si próprio. Prefere viver como criança: come quando tem vontade, chora quando sente desconforto, dorme, acorda, satisfaz suas necessidades à toa. Inf elizmente, a própria escola fortalece a geração da “cultura audiovisual” em vez de contrastá-la. As nossas crianças, através de teatrinhos e “palhaços-professor” são “entretidas”, os nossos jovens, através de shows de instrumentos audiovisuais são “atordoados”. A escrita, a leitura, a análise e a reflexão são marginalizadas. Muitos jornais, também, preferem correr atrás da televisão, aumentando a cor e estampando bundas, deixando de lado os conteúdos. Quem sabe com essa concorrência, o público não se diverte e passará a ler os jornais para se vingar da televisão e, assim, melhorar a própria televisão. Os homens precisam lembrar constantemente, como disse Gothe, e como mostrei em meu livro O mal do século, que “o mundo só pode ir em frente por meio daqueles que se opõem a ele”.

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