Wednesday, 23 de October de 2019

GERAL


Violência como característica do ser humano

10 Apr 2010

Por José João Neves Barbosa Vicente – josebvicente@bol.com.br

A violência é sem dúvida, como afirmou Dadoun em seu livro A violencia, uma característica constitutiva do ser do homem e, normalmente, ela é percebida como resposta a outra violência. Qualquer aspecto da realidade humana está a ela associada. Mas é necessário entender o conceito em seu sentido próprio. Ou seja, relacionado com tudo aquilo que tem relação com força, potência, energia e poder.

Para quem acredita nos ensinamentos da Bíblia, por exemplo, a instauração da violência está no principio do mundo. Basta ler o livro de Gênese, e prestar atenção nas histórias sobre Adão e Eva, Torre de Babel, Caim e Abel, proibições e gestos demiúrgicos da criação. Mas, se preferir um exemplo do limite absoluto da violência na Bíblia, basta prosseguir com a leitura e prestar atenção na história de Jesus feito homem, morrendo crucificado. Ora, em atos violentos, a história da humanidade ocupa, também, um lugar de destaque. Não é difícil encontrar registros de guerras, ódio, mutilações, torturas, massacres, atentados, racismo, inveja, desprezo, trabalhos forçados e destruições programadas de coletividade inteira.

Se alguém observar com atenção, aquilo que comumente é denominado de “poder”, principalmente o “poder político”, não vai encontrar dificuldade para constatar que ele está praticamente associado à violência. Pode-se afirmar sem medo de errar, que o único problema do poder é a violência e que a finalidade da violência é o poder. No totalitarismo, por exemplo, assunto que discuti sistematicamente no meu livro O mal do século, o exercício do poder consistia numa prática organizada de violência pela busca obsessiva da unidade em torno do Partido ou do Líder a qualquer preço. Hoje, a confiança, por enquanto está sendo depositada no Estado do Direito que, segundo alguns, possibilita ao homem resistir, inventar a humanidade. Todavia, na democracia se lida ta mbém com a violência, uma violência que surge como desafio. Por isso que a democracia  deve constantemente repensar os seus princípios.

É praticamente impossível, observa Dadoun em A violência, no cotidiano, encontrar palavras, olhares, tons de voz, mímicas, posturas, gestos, objetos ou instantes que não encubram uma pitada de violência. O nascimento, por exemplo, pode ser considerado o primeiro tipo de violência sofrido pelo ser humano. Ele é praticamente “expulso” de um “mundo” de proteção e satisfação (o meio intra-uterino), e “lançado” para dentro do mundo da dura necessidade e de múltiplas violências. Na "infância", ele será logo submetido à violência na "transmissão" do conhecimento e na "transmissão" de uma praga, denominada “modelos de comportamento” a fim de integrá-lo numa “coisa” que não possui existência próp ria, mas que para muitos, parece existir independentemente do homem, a “sociedade”. Quando ele chegar ao chamado "adolescência", ele sofrerá uma violência pela transformação do seu próprio corpo. Com o tempo, ele vai precisar estudar, trabalhar, namorar, produzir... Essas coisas não são necessariamente ruins. Porém, quero mostrar que existe uma relação estreita entre elas e a violência. Ou seja, cada um dos elementos investe e se apodera do outro. Eles impõem implacavelmente, a violência de seus determinismos. Não há como negar, toda violência é uma resistência a outra violência que necessariamente tende a fixar.

O homem sempre procura expulsar a violência  dele e atribuí-la ao outro. Ou seja, quem inicia é sempre o outro, a culpa é sempre do outro. Toda a violência é do outro. O outro é, também, no fundo, violência pelo fato de ele ser, existir. Para superar tudo isso é necessário ainda violência. Afinal, querendo ou não, para resistir, o "eu" deve agÿentar o golpe, e isso não será possível se ele não for uma estrutura violenta. O tempo é também violência. Ele crava na “alma”, afirma Dadoun em A violencia, perda irremediável e no corpo, marca indelével, como o envelhecimento. Somente os vivos percebem isso, eles percebem, também, que estão correndo apressadamente para a morte, a suprema violência infligida à humanidade. Porém, devido a criação imaginária que faz o morto perturbar o mundo do vivo, a violência do tempo não termina com a morte.

 

José João Neves Barbosa Vicente – josebvicente@bol.com.br é filósofo, professor da Universidade Federal do Recÿncavo da Bahia (UFRB)

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