Sunday, 17 de February de 2019

OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Colégio de Dirigentes

24 Aug 2017

Os Institutos Federais criaram a figura do colégio de dirigentes enquanto instância em que reitor, pró-reitores e diretores gerais de campus tratam de questões gerenciais dessas instituições. Essas instâncias, apesar de serem estratégicas, não podem ser confundidas como Conselhos. Como mostrado nos artigos anteriores específicos sobre essa dimensão hierárquica das organizações, os colégios de dirigentes têm outras finalidades porque são compostos por outras posições na hierarquia. Neste caso, seus executivos principais, tanto institucionais quanto setoriais. Neste sentido, este artigo tem como objetivo explicar o papel que o colégio de dirigentes poderia cumprir para aperfeiçoar o gerenciamento dos institutos federais como organizações de ciência e tecnologia.

Para que se compreenda a função do colégio dos dirigentes no gerenciamento das organizações, é necessário que se recorde, antes, a lógica gerencial. Mais precisamente, como funciona o processo gerencial. É sempre com base no processo gerencial que se devem avaliar todos os procedimentos organizacionais porque é ele que permite que os objetivos e metas organizacionais sejam alcançados a partir da otimização dos usos de recursos.

Assim, a primeira coisa que se deve compreender é que quaisquer que sejam os grupos e subgrupos organizacionais devem estar voltados para o alcance dos objetivos e metas da organização, ainda que indiretamente. Isso implica em admitir – ou pelo menos presumir - que a organização de ciência e tecnologia tem um plano, que é a configuração explícita e quantificável de objetivos e metas a serem alcançadas. A justificativa dos colégios dirigentes, então, vem daqui, em primeiro lugar: que sejam os guardiões dos objetivos e metas estratégicos da organização porque todos os seus integrantes fazem parte desta dimensão hierárquica.

Essa é uma iniciativa interessante, apesar de muito comuns nas organizações privadas e nas organizações de ciência e tecnologia de primeira linha. É a finalidade desses grupos é discutir formas de superar desafios que se fizeram presentes ao longo do período de execução do plano. Por exemplo, os objetivos operacionais dessas organizações, com horizonte de até um ano, são quebrados em metas com horizontes menores, geralmente de dois ou três meses. Nesse período de dois ou três meses, os problemas encontrados no alcance dos objetivos e metas são discutidos e decididos nessas reuniões periódicas. Os objetivos e metas alcançados não são objetos de pauta.

A segunda coisa é decorrente dessa primeira: apesar das reuniões terem períodos curtos, a finalidade delas é sempre para com o alcance do objetivo de longo prazo, que é sempre a construção de um futuro por todos desejados na organização. Isso significa que esses encontros são certificações de garantia de que o objetivo final desejado seja alcançado e que correções de rumos precisam ser feitas, quando necessárias, a partir das decisões desses encontros periódicos.

Não são objetos de discussão tudo aquilo que não digam respeito aos objetivos e metas institucionais. Os objetivos e metas setoriais (de cada campus) são apenas a materialização dos objetivos e metas institucionais. Dessa forma, ao colocar em foco aquilo que acontece efetivamente nos campi, as reuniões centradas exclusivamente nos objetivos e metas previstos e executados garante ao corpo social dessa organização e seus stakeholders que aquilo que foi acertado pela gestão está sendo garantido efetivamente.

A terceira e última coisa a ser considerada é o desdobramento das decisões desse colegiado. Tecnicamente, toda decisão colegiada modifica, de alguma forma, as decisões anteriores contidas no plano de gestão. Dessa forma, o que foi previsto sofre alterações a partir do que foi executado e essas alterações farão reorientações nas novas retas de previsão de resultados. Quando integradas, essas decisões provocam alterações em cadeia, ganhando ou perdendo sinergia e, com isso, aumentando ou diminuindo as negentropias. E isso precisa ser meticulosamente calculado.

Do ponto de vista prático, surge a pergunta: as organizações de ciência e tecnologia têm um plano efetivo? Como plano efetivo está-se indagando sobre se há objetivos e metas com indicadores e métricas bem definidas, padronizadas em conformidade com as técnicas gerenciais, passíveis de serem quantificados e avaliáveis periodicamente. O que se tem visto (ou melhor, o que não se tem visto, uma vez que alguns institutos federais não cumprem a lei de transparência ao não tornar públicos seus objetivos e metas e os resultados auferidos) leva a crer que não. Como consequência, tem-se a impressão de que essas reuniões são pura perda de tempo, onde problemas localizados são falados sem consequências práticas sobre os objetivos e metas de longo prazo da organização.

Mais uma vez, dada a intransparência, a impressão que se tem é que as reuniões de colegiado não têm sentido. Como consequência, ou esses colegiados são reorientados em seu funcionamento ou devem ser eliminados, dados os custos anuais e plurianuais de sua manutenção. A razão disso é que cada técnica e procedimento gerencial tem sua razão de existência validado ou pela sua contribuição para com os objetivos e metas organizacionais ou para com o processo, que representa a qualidade dos produtos e serviços organizacionais. Se não estiver colaborando nem para o produto final, nem para a qualidade deste produto, não há razão de existir.

Os colegiados organizacionais são uma ferramenta fundamental para o funcionamento das organizações porque liga o ambiente interno ao ambiente externo. Mas, como toda ferramenta, precisa ser utilizada da maneira que seu manual de instrução prevê. Se for utilizada para outra finalidade, outra ferramenta deve ser adotada, da mesma forma que cada medicamento tem seu foco de aplicação e modo de usar.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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