Palmas, 23/01/2018

Opini√£o

Ciência e Tecnologia

Diretor de Pesquisas

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Diretor de Pesquisas


Os diretores de pesquisas quase sempre t√™m concentrado seus esfor√ßos em busca de bolsas para seus pesquisadores, tanto professores quanto alunos. E nisso dispendem quase todo o seu tempo de trabalho. Muitas vezes quem ocupa essa posi√ß√£o s√£o pesquisadores com alguma experi√™ncia em produ√ß√£o cient√≠fica, mas com praticamente nenhuma experi√™ncia ou forma√ß√£o t√©cnica em gest√£o. E o resultado √© quase sempre o mesmo: inefici√™ncia. E torna-se v√°lido o velho jarg√£o: "perde-se um excelente pesquisador e ganha-se um diretor de pesquisa extraordinariamente ineficiente". Este artigo tem como objetivo mostrar o que os diretores de pesquisas de organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia precisam focar e que conhecimentos devem ter para alcan√ßar os resultados que essas diretorias quase sempre t√™m em mente.

O que os diretores de pesquisas desconhecem, e que impede o sucesso nas suas gest√Ķes, √© a l√≥gica de funcionamento de qualquer organiza√ß√£o. Desconhecem tamb√©m que toda organiza√ß√£o (e a diretoria de pesquisas √© uma organiza√ß√£o) precisa produzir alguma coisa que seja do interesse do seu ambiente de atua√ß√£o. Ent√£o a primeira coisa que todo diretor de pesquisas deve saber √© o que o ambiente tem como necessidade e que sua organiza√ß√£o pode suprir. √Č desse levantamento que vai depender todo o desdobramento do seu plano de a√ß√£o.

Sabendo quais s√£o os produtos (conhecimentos, metodologias, produtos, servi√ßos, patentes, registros de propriedade intelectual, inova√ß√Ķes, empresas de base tecnol√≥gica, dentre in√ļmeros outros) que o ambiente necessita, a etapa seguinte √© fazer o levantamento interno para saber quem s√£o os pesquisadores, grupos de pesquisadores, grupos de pesquisas e campi que podem produzir esses produtos e suprir as necessidades do ambiente. Se n√£o houver pesquisadores, grupos de pesquisadores, enfim, se n√£o houver quem seja capaz de produzir o que o ambiente precisa, ou o diretor de pesquisas recomenda a elimina√ß√£o da diretoria √† organiza√ß√£o de ci√™ncia e tecnologia de que fa√ßa parte ou come√ßa a capacitar e a organizar os seus pesquisadores para este intuito.

Com pesquisadores e grupos de pesquisadores identificados com os produtos/servi√ßos de que o ambiente externo precisa, a etapa seguinte √© a elabora√ß√£o de um plano de produ√ß√£o ou plano de opera√ß√Ķes cuja finalidade √© garantir o suprimento das necessidades do ambiente. Esse plano global institucional √© feito a partir dos planos de cada grupo de pesquisadores (gerenciado pelo l√≠der) e de cada campus (gerenciado pelo diretor de pesquisa do campus). Evidentemente que os planos devem apontar, pelo menos, os objetivos a serem alcan√ßados, os produtos e servi√ßos que ser√£o criados, as estrat√©gias que ser√£o executadas, os projetos para cada produto ou servi√ßo, os recursos necess√°rios para garantir a produ√ß√£o dos servi√ßos e produtos, os indicadores institucionais e operacionais de desempenho e as m√©tricas necess√°rias para a mensura√ß√£o dos resultados.

Em organiza√ß√Ķes multicampi, o que tem sido muito comum na realidade brasileira, os planos de suprimento de necessidades deve ser direcionado para cada ambiente local, de maneira que cada campus foca as necessidades de seu ambiente. Em alguns casos √© necess√°ria a conjuga√ß√£o de esfor√ßos multicampi para o suprimento de necessidades espec√≠ficas e tamb√©m de necessidades dispersas espacialmente. √Č papel do diretor sist√™mico de pesquisa fazer o levantamento global de toda a √°rea de atua√ß√£o de sua institui√ß√£o, sempre em parceria com os diretores de pesquisas ou similares de cada campus.

Esse esquema lógico permite que se compreenda que o diretor de pesquisas deve focar a entrega de produtos e serviços ao ambiente externo. Para isso, precisa saber com precisão que produtos e serviços cada pesquisador e grupo de pesquisadores de sua instituição são capazes de produzir, pelo lado da oferta; pelo lado da demanda, precisa saber com exatidão quais são as necessidades de produtos e serviços de pesquisa de cada organização que faz parte de seu ambiente de atuação. Sintetizando, diretores de pesquisas devem focar demanda e oferta de produtos e serviços oriundos de pesquisas, científica e/ou tecnológicas.

J√° est√° na hora de diretores de pesquisas pararem de se preocupar bom bolsas de pesquisas. E bolsas com valores irris√≥rios, miser√°veis. E ainda tem diretor que se vangloria de ter obtido algumas dezenas de bolsas cujos valores n√£o pagam sequer o transporte de alunos de gradua√ß√£o. A gest√£o profissional da pesquisa, que √© responsabilidade do diretor de pesquisas, requer negocia√ß√Ķes profissionais, maduras, respons√°veis e consequentes. Nada de mendigar. Nada de se humilhar. Nenhum negociador d√° import√Ęncia para indiv√≠duos que n√£o aprenderam a negociar. E negocia√ß√£o significa auxiliar na resolu√ß√£o de problemas de alta complexidade.

Lembro certa vez participar de uma negocia√ß√£o de uma pesquisa cujo objetivo era elevar a capacidade competitiva do produto de certa ind√ļstria amaz√īnica. O projeto previa a redu√ß√£o dos custos de produ√ß√£o de certo produto na ordem de 27% e eleva√ß√£o da receita em torno de 42%. Atrav√©s de v√°rias simula√ß√Ķes conseguimos demonstrar a viabilidade de execu√ß√£o do projeto quanto o alcance dos objetivos pretendidos. Depois de executado, os resultados permitiram que o produto alcan√ßasse 18% de marketing share mundial. E deu quase 80 milh√Ķes de d√≥lares de retorno para a ind√ļstria. Em troca, a organiza√ß√£o de ci√™ncia e tecnologia ganhou um pr√©dio de seis andares equipados com equipamentos de √ļltima gera√ß√£o e um milh√£o de d√≥lares em dinheiro.

Gerenciar pesquisas n√£o √© lidar com bolsas. Gerenciar pesquisas √© ser capaz de auxiliar na resolu√ß√£o de problemas complexos de organiza√ß√Ķes parceiras que atuam no ambiente de inser√ß√£o da organiza√ß√£o de ci√™ncia e tecnologia. Tamb√©m n√£o √© fazer pesquisas para encher revistas cient√≠ficas de conhecimentos. Isso √© coisa de imaturo. O diretor de pesquisas competente n√£o √© aquele que transforma dinheiro em conhecimentos, mas o que transforma conhecimentos em dinheiro.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


Coment√°rios

comments powered by Disqus