Thursday, 13 de December de 2018

OPINIÃO


Pensar

O pensamento cristão e a liberdade humana

10 Jan 2013

José João Neves Barbosa Vicente
 
No pensamento cristão dos primeiros tempos e da Idade Média, quando o assunto é a liberdade humana, duas posições se destacam: uma que defende o direito do homem de escolher entre o bem e mal, e a outra que nega radicalmente esse direito.

Dois pensadores religiosos influenciaram fortemente o pensamento cristão desses períodos: Fílon e Plotino. Para eles, Deus é a liberdade perfeita; e a alma humana, por ser semelhante a Deus, partilha, também, dessa liberdade. Mas, ao encarnar-se no corpo ou na matéria, ela perde sua liberdade. No entanto, permanece com a sua capacidade de salvar-se, de libertar-se do corpo se quiser, pois a matéria não possui domínio total sobre ela.

Seguindo de perto esse pensamento, os apologistas ensinaram que o homem é livre e que a sua queda é fruto do contato com o corpo. A alma foi criada e dotada da faculdade de escolher entre o bem e o mal; assim, alguns escolheram afastar-se de Deus e entregar-se aos pecados da matéria, mas com auxilio da divindade e levando uma vida crist ã, eles poderão retornar à Deus. Será uma escolha real e eterna que determinará para sempre seus destinos. Salvar-se dos pecados, portanto, significa, essencialmente, responder por eles: ninguém é culpado de um ato, se não pudesse agir diferentemente. O homem só pode ser condenado pelos seus pecados, se for livre para escolher e, se pecou, é então livre. Deus, em hipótese alguma pode ser responsável pelo mal e pelos pecados do mundo. Como disse Pelágio, o antigo monge cristão, Deus deu a liberdade ao homem para que possa escolher entre o bem e o mal; cada um faz sua própria escolha dentro do espírito do livre-arbítrio.


Infelizmente, essa liberdade do indivíduo foi negada pelo Santo Agostinho. Na concepção deste pensador, se o homem um dia foi livre, isso aconteceu apenas no tempo de Adão e Eva. Estes, no entanto, preferiram pecar e perderam a liberdade, não apenas para eles como para todos os descendentes. A partir desse triste ponto de vista, ninguém é livre, mas pecadores e escravos do mal. É um pensamento que aponta para o fatalismo e a predestinação do homem; isto é, o pecado de Adão e Eva tornou-se hereditário e o futuro de cada homem se acha determinado, não por qualquer ato seu, mas pelo ato do primeiro homem – é o famoso pecado original que retira do homem o direito de escolher, mas é importante que se diga: sem esse direito não pode existir pecado.

É por isso que Abelardo reconheceu de imediato, a liberdade d o homem e o pecado como consentimento na prática de um ato mau, reconhecido pelo indivíduo como mau. O próprio S. Tomás de Aquino, que em suas reflexões especificamente religiosas defendeu a doutrina do pecado original como Santo Agostinho, demonstrou acreditar na liberdade da vontade humana ao ensinar que o homem, dotado de vontade e inteligência, não é impelido pelo exterior a agir, como os animais; ele pode determinar suas ações. Sua vontade pode seguir o intelecto, fazendo o que este afirmar ser direito. Mas a vontade pode escolher se deve ou não agir. A liberdade da vontade humana foi, por fim, radicalizada por J.D. Escoto que posicionou da seguinte maneira: entre um intelecto sem vontade e uma vontade sem intelecto, o melhor a fazer seria escolher a segunda opção.

Na renascença o homem começou a libertar-se dessas doutrinas, resolveu estudar livremente o mundo.  Não queria mais ficar preso a doutrinas e crenças do passado, o mundo passou a ser analisado e estudado com olhos desvendados. Leis que “controlam" o homem e o universo foram descobertas. As ações e os pensamentos começaram a ser concebidos de acordo com essas leis que não toleravam interferências ou alterações. Portanto, se o homem conseguiu libertar-se da autoridade do passado e das doutrinas do pensamento cristão, ele foi novamente escravizado por um senhor mais poderoso e mais inflexível que qualquer outro que conhecera antes, pois passou a ser simples parte de um universo mecânico, controlado por forças, e sem significado, salvo como unidade de um todo inexoráve l.
 
Filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Editor da GRIOT – Revista de Filosofia.

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