Friday, 07 de August de 2020

VIVER


Conto

Obstáculo inesperado ou o desafio de uma escada

08 Jul 2009

O relógio do carro assinalava a meia-noite quando entramos na pequena cidade do Planalto. Fazia um frio terrível, daqueles de encarangar, e o vento gélido, batendo em lufadas, levantava a poeira do chão e alguns papéis que rodopiavam no ar e desciam um pouco adiante. No céu, uma névoa branca se adensava e baixava vagarosa sobre a cidade em silêncio.

Procuramos o hotel onde tínhamos reserva, o único da cidade. Rodamos para lá e para cá e não o encontramos. Nem placas, nem anúncios, nem indicações. Nada. Não havia viva alma nas ruas, nem mesmo os costumeiros cachorros sem dono, que deveriam estar enrodilhados em algum canto, fugindo da friagem. Não havia a quem perguntar. Que fazer? Lembrei-me do hospital. Lá deveria haver alguém de plantão. O prédio baixo, de um amarelo escuro, estava imerso em silêncio. Havia luz no saguão mas a porta estava fechada e ninguém apareceu. Minhas batidas na porta metálica repercutiam longe e de um jeito lúgubre. Fosse uma emergência, o doente estaria am maus lençóis.

Desanimado, voltava ao carro quando avistei uma mulher com uma criança pela mão. Apelei àquela alma salvadora, temeroso de que levasse um susto e se pusesse a correr. Mas ela parou e explicou que o hotel ficava uns três quarteirões para dentro, em cima de um posto. Aliviados, rumamos à procura do hotel encantado. Achamos o posto, em total escuridão, sem nada que pudesse indicar a existência de um hotel. Numa casa vizinha, um casal acompanhava nossa movimentação, e saiu à janela.

"Tem que passar diante do posto e dobrar à direita. Ali tem uma portinha estreita com campainha. É a entrada do hotel!"

Assim fizemos, encontrando a portinha estreita. Mas a campainha? Onde está que não a vejo? Tateei aos lados, no alto, em baixo, naquela escuridão impenetrável. Nada de campainha; deveria ser secreta. A solução foi voltar o carro para a porta, com os faróis altos acesos, e assim localizar, afinal, o misterioso aparelho, instalado na mais incrível posição. Toquei, toquei, até que uma janela se abriu e uma cabeça desgrenhada surgiu lá em cima.

"Temos reserva para esta noite!" - bradei para os céus.

Houve movimentação no alto e o homem voltou à janela.

"Pode estacionar o carro em baixo da cobertura do posto. Mais adiante tem uma escada para subir ao hotel."

Retiramos a bagagem, duas malas e uma sacola com calçados e petrechos necessários, e tratamos de procurar a escada. Para surpresa nossa, nada ali se parecia com uma escada, a dita cuja não existia. Anda para lá, anda para cá, no escuro, deparamos com o inacreditável. Tratava-se de uma escada de metal, em espiral, muito estreita, com corrimões altos e curvas fechadas, subindo ao lado da coluna do prédio e que parecia rumar ao infinito, uma vez que seu fim se perdia no breu noturno. Só havia uma solução: enfrentar o desafio. Como eu e a mala não cabíamos, lado a lado, nos corrimões estreitos, colocava a mala três degraus acima, depois subia até ela, e assim até em cima. A operação foi repetida três vezes, até que toda a bagagem chegasse ao alto. Através de um corredor estreito, chegamos, por fim, ao apartamento que nos abrigou da intempérie. Havia, no entanto, compensações: as camas eram boas e os acolchoados de lã tão grossos e pesados que mal permitiam os movimentos. E o banheiro era usável.

No dia seguinte, tive que fazer a descida de costas - ou de ré. Colocando a mala adiante de mim, ela correria descontrolada e se espatifaria lá em baixo. Descia três degraus e puxava a mala, mais três degraus e puxava a mala. Assim por três vezes.

Esbofado, suado e irritado, mal pude acreditar que estava no carro e de saída para outras paragens.

Ó Literatura, a que desafios me submetes!

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